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No Faial, o Executivo admite gastar 36 milhões de euros só na compra de terrenos e na preparação da obra. Não é um pormenor. É uma escolha política. É dinheiro público a abrir caminho para projectos que, no fim, serão explorados por privados. Na Ponta do Pargo, a lógica repete-se: fala-se em 110 milhões de euros de impacto, 15 milhões por ano e cerca de 500 postos de trabalho. Só que impacto previsto não é garantia, e promessa não é emprego.
O problema não é haver turismo. O problema é transformar um sector específico numa solução universal, como se a Madeira tivesse de girar em torno de hotéis, imobiliário de luxo e campos de golfe. Este modelo serve quem já tem capital. Não serve, por si, quem vive apertado, quem espera por uma casa acessível, quem depende de cuidados de saúde rápidos, quem precisa de transportes dignos para trabalhar e estudar.
Os próprios dados sociais desmentem a euforia oficial. Em 2025, cerca de 53,3 mil residentes estavam em risco de pobreza ou exclusão social. Perante este número, o que fazia sentido era reforçar a habitação, os serviços públicos e o apoio às famílias. Mas o Governo prefere relvados, brochuras e previsões de investimento. Quando a realidade pede política social, o poder responde com marketing económico.
Também não chega pegar no Porto Santo e usá-lo como argumento para tudo. Sim, o campo registou 39.749 voltas em 2025. Mas um caso local não prova que a mesma receita funcione em toda a Região. E muito menos apaga os custos públicos, as expropriações e a ocupação de solo que estes projectos exigem. Um sucesso isolado não transforma uma aposta arriscada numa verdade universal.
Há ainda uma questão central: quando o dinheiro de todos paga a preparação do terreno, o risco fica socializado e o ganho acaba privatizado. Isso tem nome. E este nome é simples: o público suporta a conta; o privado recolhe o lucro. Chamar a isto “âncora de desenvolvimento” não resolve a contradição. Só a disfarça.
A Madeira não precisa de ser tratada como um portefólio de luxo nem como um quintal de interesses bem instalados. Precisa de casa, saúde, mobilidade e salários que cheguem ao final do mês. Desenvolvimento sério é isto. O resto é ilusão cara, com cheiro a negócio e discurso de vitrina.
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