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No caso em apreço, estamos perante um perfil que revela uma acentuada dificuldade em distinguir autoridade de autoritarismo e liderança de imposição. O exercício de funções é marcado por uma lógica unilateral, frequentemente traduzida em orientações do tipo “dou a ordem e cumpre-se”, onde o diálogo é dispensável, o contraditório é desincentivado e a participação da equipa assume um papel meramente simbólico.
O padrão é consistente e facilmente reconhecível, pautado por um discurso centrado no “eu” — “eu fiz”, “eu decidi”, “eu sei”, “eu mando” — relegando o colectivo para um plano secundário. A equipa existe, mas só os "amigos" participam. A liderança transforma-se, assim, num exercício individual, mais próximo de um palco do que de um verdadeiro espaço de coordenação e construção conjunta.
Paralelamente, a invocação recorrente de instâncias superiores, como o Conselho de Administração do SESARAM, surge não como instrumento de esclarecimento, mas como mecanismo de pressão. Quando a fundamentação escasseia, recorre-se à hierarquia (Conselho de Administração) como argumento final, criando um ambiente onde questionar se torna desconfortável e, por vezes, indesejado.
Este modelo não se esgota na figura principal. É replicado e amplificado por uma chefia intermédia que, longe de introduzir equilíbrio, atua como uma extensão directa deste estilo, assegurando a sua continuidade e reforçando um ambiente já marcado pela tensão e pela ausência de confiança.
O impacto interno é significativo. O ambiente de trabalho oscila entre o desconforto e o desgaste, com episódios de exposição e desvalorização pública de colaboradores, decisões pouco transparentes e bastante precipitadas, e uma percepção generalizada de ausência de critérios claros. O mérito nem sempre parece ser o factor determinante. A proximidade, a amizade e a conveniência assumem, com frequência, um papel decisivo.
A gestão de funções e responsabilidades evidencia igualmente fragilidades. Verifica-se constantemente a atribuição de tarefas desalinhadas com as categorias profissionais, nomeadamente a delegação de funções a colaboradores sem o enquadramento (e habilitação) adequado, ao mesmo tempo que profissionais experientes vêem o seu papel progressivamente desvalorizado. Este cenário contribui para a indefinição de responsabilidades, para a desorganização interna e para um sentimento de injustiça organizacional.
Do ponto de vista comportamental, emergem traços de acentuado egocentrismo e necessidade de validação, acompanhados de uma postura de superioridade pouco compatível com a exigência de funções de liderança. A crítica é mal recebida, o escrutínio é evitado e a autocrítica revela-se limitada. Acresce uma dificuldade evidente em manter relações institucionais equilibradas, incluindo interacções desnecessariamente conflituosas com profissionais de outras carreiras e de vários serviços.
A comunicação, revela-se muitas vezes pouco clara, contribuindo para o desalinhamento das equipas e para a ineficiência dos processos. Orientações vagas e precipitadas, alterações constantes e ausência de coerência estratégica transformam o funcionamento deste núcleo essencial ao utente, num exercício de adaptação permanente, mais próximo da improvisação do que de uma gestão estruturada.
A este quadro soma-se uma característica particularmente marcante, a capacidade de adaptação ao contexto, não no sentido positivo da flexibilidade estratégica, mas numa lógica de conveniência. Trata-se de uma postura camaleónica, “conforme a música, assim a dança”, onde o posicionamento, o discurso e até as convicções aparentes se moldam em função do interlocutor, do ambiente ou da oportunidade. Esta volatilidade fragiliza a confiança e levanta dúvidas quanto à consistência e autenticidade da liderança exercida.
Curiosamente, em contexto externo, nomeadamente nas redes sociais ou em ambientes públicos, a imagem projectada contrasta de forma significativa com a realidade interna. Aí surge uma versão ponderada, inspiradora e alinhada com os princípios da boa liderança, um registo cuidado que não encontra correspondência no quotidiano organizacional. O desfasamento é tal que sugere quase a coexistência de duas narrativas distintas - uma para consumo externo, outra para a gestão interna.
Por fim, importa referir que este padrão de actuação não se limita ao plano organizacional. A volatilidade de posicionamento estende-se, inclusivamente, ao domínio político, onde se observa uma orientação mais assente em conveniências circunstanciais do que em princípios consistentes, reforçando a percepção de um percurso guiado por interesses próprios.
O resultado global é um núcleo fragilizado, marcado por desmotivação, desgaste e silêncio organizacional, não por concordância, mas por prudência. Resultando, temos profissionais competentes que veem-se progressivamente afastados das suas funções e esse impacto estende-se ao serviço prestado ao utente, com desorganização, falhas operacionais e a perda de qualidade de uma prestação de serviço público por quem dele depende.
No fundo, mais do que uma questão de estilo de liderança, trata-se de um problema de coerência, de equidade e de responsabilidade. E quando estes pilares falham, não falha apenas uma liderança, compromete-se toda a estrutura que dela depende.
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