- https://madeira.rtp.pt/sociedade/portugal-esgota-na-quinta-feira-os-recursos-disponiveis-para-este-ano/
Muitos pensam que a insustentabilidade é conversa da treta, só quando lhes bater à porta, quando for tarde, é que despertam. Isto não é contra o desenvolvimento, isto é contra o exagero do amanhã que se come hoje!
P
ortugal, como um todo, esgota os seus recursos anuais amanhã, dia 7 de maio de 2026. Embora a Global Footprint Network não publique um cálculo isolado e oficial apenas para a Região Autónoma da Madeira (o chamado "Overshoot Day" regional), é possível fazer uma estimativa aproximada com base no perfil de consumo e na biocapacidade local.
A pegada ecológica é calculada com base no consumo. Na Madeira, o consumo de recursos (energia, água, alimentos importados) é inflacionado pelo setor turístico. Embora a população residente seja de cerca de 250 mil pessoas, a região recebe mais de 2 milhões de turistas por ano.
Se contarmos com o consumo per capita real (incluindo o que é gasto para manter a infraestrutura turística), a data da Madeira poderia ser antecipada em relação à média nacional, aproximando-se talvez meados de abril.
A Madeira tem uma grande área de floresta (Laurissilva) que ajuda a absorver CO2, o que é um ponto positivo para a biocapacidade. No entanto, a dependência de transporte marítimo e aéreo para quase todos os bens de consumo (combustíveis, materiais de construção, tecnologia) aumenta drasticamente a pegada de carbono associada a cada produto que chega à ilha.
Se Portugal esgota os recursos a 7 de maio, e sabendo que as regiões com maior pressão turística e dependência de importações tendem a ter uma pegada ligeiramente superior à média das zonas rurais do continente, é muito provável que a "quota-parte" de recursos da Madeira se tenha esgotado entre meados e final de abril. Somos uma ilha, tem influência.
1. O Rácio 1:8 e o Consumo de Água
Quando tens uma população de 250 mil pessoas a suportar a pegada de 2 milhões, o cálculo per capita oficial torna-se ilusório. Um turista consome, em média, duas a três vezes mais água por dia do que um residente. Na Madeira, isto é agravado pela manutenção de piscinas e jardins tropicais nos hotéis. E futuramente, mais campos de golfe. Se considerarmos que os recursos hídricos locais são finitos e dependem da captura da névoa e chuva na floresta, o consumo turístico acelera o esgotamento das reservas muito antes do que o consumo doméstico faria sozinho. Lembrem-se, 1 madeirense para 8 turistas que consomem 2 a 4 vezes mais.
2. A Gestão de Resíduos (Lixo)
Produzimos lixo como uma metrópole, mas estamos num território fechado. A incineração e o aterro têm limites físicos como já vimos, querem alaragar de novo. O custo energético para processar o lixo de 2 milhões de pessoas (que muitas vezes consomem mais produtos descartáveis e embalados durante as férias) é enorme. Na pegada ecológica, o lixo gerado conta como energia gasta no tratamento e solo perdido, o que puxa a data de esgotamento para mais cedo no calendário.
3. Efluentes e Tratamento Primário
Se as ETARs realizam apenas tratamento primário (separação de sólidos), a carga orgânica e química que chega ao mar é altíssima. A pegada ecológica não mede apenas o que tiramos da terra, mas também a capacidade da natureza em absorver os nossos resíduos. Ao sobrecarregar o ecossistema marinho com efluentes mal tratados, estamos a destruir a "biocapacidade" do mar da Madeira, diminuindo a capacidade de regeneração do ecossistema local. Há grave impacto na biocapacidade marinha.
Se Portugal esgota os recursos a 7 de maio, ao aplicarmos estas variáveis para "overshoot day" da Madeira antecipa a data em cerca de 10-15 dias. A deficiência no tratamento de efluentes reduz a biocapacidade de absorção, antecipando mais uns dias. Mas há mais...
A dependência externa (custo energético do transporte é o fator que mais pesa, costumam falar dos cruzeiros, e os aviões? Num cenário realista e minucioso, a Madeira terá provavelmente esgotado a sua quota-parte de recursos anuais algures em meados de abril e, se falhar, é por defeito.
Basicamente, a região vive "a crédito" ambiental durante cerca de 8 meses do ano, dependendo inteiramente de recursos que vêm de fora e da degradação acumulada do seu próprio ecossistema. Só temos ambiente para um terço do ano, perceberam o que é insustentabilidade?
Se todos fossem Madeira, precisaríamos de 2,9 planetas, praticamente 3, para mantermos este ritmo. A insularidade e o modelo de consumo atual colocam a Madeira numa posição de grande vulnerabilidade ambiental. Um desastre. Ganância tem custo e factura. A partir de amanhã, o país entra oficialmente em "incumprimento" com o planeta, vivendo do capital natural que deveria pertencer às gerações futuras, a Madeira foi há 3 semanas atrás.
Continuem a embevecer com as notícias de ambiente de Eduardo Jesus. Mas ruim mesmo foi a alteração do tipo de turismo que tínhamos. É avassalador a todos os níveis.
Tentei ser conciso e cortei situações, mas ainda assim o texto ficou grande. Espero que deem valor ao que expliquei.
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