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O corte que dói na alma do património

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A

s imagens não enganam, a porta da Sé, que sobreviveu a séculos de história, não resistiu à miopia de uma solução de "desenrasque". Serrar o original em vez de ajustar o solo ou encontrar uma solução técnica reversível é o símbolo de uma gestão de património que prefere a amputação à preservação. Então onde anda essa Igreja pro vida em relação ao património? O património contém a consciência de muitas almas que trouxe até nós um monumento intacto!

Não é apenas madeira que foi cortada, foi a integridade de um monumento nacional. Quando as fotografias mostram o detalhe da serra, percebemos que a "estética" foi sacrificada no altar da conveniência. Mas a história ensina-nos que o que foi mal feito pode (e deve) ser desfeito. Não podemos aceitar o "já está" como resposta definitiva. A Sé de Funchal merece mais do que um remendo, merece um restauro que devolva a dignidade à sua entrada principal. Ou a peça foi para o lixo?!

Muitas vezes, o argumento para estas "soluções de serra" é a falta de alternativa. Tive o cuidado de averiguar para além de um exemplo que conheço. 

Catedral de Notre-Dame (Paris) & outras igrejas góticas

Em vez de cortarem a madeira, utilizam-se dobradiças de eixo descentrado ou sistemas de elevação hidráulica invisíveis. Quando a porta abre, ela eleva-se milímetros para não roçar no chão. É tecnologia moderna ao serviço do antigo, sem tocar na peça original.

Não éramos o povo superior?

Palácio de Versalhes (França)

Muitas portas empenaram com os séculos. A solução passou por enxertos de madeira histórica (reversíveis) e a criação de uma subestrutura de metal que sustenta o peso da porta, permitindo que ela "flutue" sobre o pavimento sem necessidade de corte.

Itália (Florença - Batistério de S. João)

As portas monumentais sofrem com o peso e o atrito. Em vez de ajustes invasivos, o restauro italiano foca-se na regularização do pavimento (baixando ligeiramente as pedras onde a porta faz o arco) ou na aplicação de micro-rolamentos que distribuem o peso, mantendo a folha da porta intacta.

A Lição para a Madeira

Nestes exemplos, a premissa foi sempre... "se algo não cabe, mexe-se no acessório, nunca no monumento". Na Sé, fez-se o contrário, o monumento foi mutilado para se adaptar às circunstâncias do momento.

Peço que o Governo Regional ou a Diocese consultem especialistas em restauro de madeiras (como os do Instituto Central de Restauro de Roma ou técnicos nacionais qualificados) para uma reparação por enxerto, eliminando a marca da serra e instalando uma ferragem adequada que evite o roçar futuro.

Se não deitaram para o lixo os restos ou fizeram uma espetada, o povo superior tem destas coisas.

Notas: lembro que a porta estava em bom estado e a intervenção foi para as pessoas não levantarem os pés para entrar! Quero ver se esta intervenção não vai criar problemas à porta que se aguentou séculos sem se queixar!

A culpa não deve morrer solteira e deve haver consequências, é uma forma pedagógica para dizer que há lei!

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