Meu texto poderá ser longo e dedicado a quem se preocupa, os levianos podem se deixar ficar.
C
omo a Madeira Nova já arrasta os pés, o Cónego da Sé decidiu recentemente serrar a parte inferior da porta interior da catedral para os idosos não tropeçarem, não avaliando outra solução de rampado para manter o património intacto. Esta ação pode conferir um Lesar do Património, para não dizer termo mais forte, de acordo com a lei. Convém que, quem manda nestes lugares, tenha noção da história e da lei!
A obra da estrutura do coro, que criou o nártex da Sé, a entrada da catedral, foi feita no século XVIII, mais concretamente em 1792, e contemplava a porta interior que agora foi serrada, ou seja, a Venezuela ainda não era independente (5 de julho de 1811), já existia aquela porta. Naquele tempo não havia idosos, morriam todos cedo, na atualidade, não fora a nossa "saúde exemplar", nada disto acontecia.
Eu sei que a Renovação tem a mesma inteligência do movimento MAGA, mas este Património Histórico está exposto a esta facilidade de destruição? A DRAC não teve uma palavra ou só vai saber agora pelo Madeira Opina? Este episódio, este "lesa a pátria", para evitar outro termo, é um caso clássico de como as necessidades funcionais de um determinado momento histórico podem colidir com a preservação da integridade artística de um monumento. Diziam que as pessoas passam e as instituições ficam, parece que isso acabou.
A mudança do coro e a criação do nártex, o espaço de transição à entrada da igreja na Sé do Funchal, foi um marco na evolução litúrgica e arquitetónica da catedral. Originalmente, como era comum nas catedrais de influência manuelina e medieval, o coro situava-se num plano mais próximo da capela-mor. No entanto, no século XVIII, seguiu-se uma tendência europeia de "limpeza" visual da nave central para permitir que os fiéis tivessem uma visão direta do altar-mor.
Para acomodar os cónegos e o serviço coral sem obstruir a nave, foi construída a estrutura que vemos hoje à entrada. Esta estrutura criou um nártex (uma espécie de vestíbulo interior) e, por cima, o coro alto. Para proteger o interior do templo das correntes de ar e separar o espaço sagrado da rua, instalou-se uma estrutura de madeira (o tapa-vento) com portas interiores de talha.
As portas do século XVIII eram pesadas e, muitas vezes, possuíam uma moldura inferior (um "socos" ou travessa) que fazia parte da estrutura de suporte da porta, obrigando as pessoas a levantar o pé para entrar. Nada é um acaso, espero que o "ferimento" na estrutura da porta interior da nossa Sé não resulte em novos problemas, uma porta histórica que se tem mantido incólume ao tempo. Em vez de se proceder a uma reengenharia da dobradiça ou à criação de uma rampa nivelada, a solução drástica foi cortar a madeira original.
Além do dano estético e da perda de material num original do século XVIII, esta alteração comprometeu o equilíbrio visual da peça. Os estudiosos não vão retirar a vista do pormenor e interiormente desancar no autor. Lembro que isso será cobrado por uma Igreja que não sabe cuidar do seu património, lembro que pecado é por pensamentos, actos e omissões. Só o Estado Laico poderá resolver isto, a ver vamos...
Na história do património, este acto é frequentemente citado como um exemplo de funcionalismo cego, onde a conveniência imediata ignora o valor histórico e artístico do objeto. Afinal, não é completamente certo que as pessoas passam e as instituições ficam...
Mas não há um só culpado!
A Sé do Funchal é Monumento Nacional desde 1910. Hoje, qualquer intervenção desse tipo, cortar a porta secular, seria impensável sem a autorização da Direção Regional da Cultura, que com certeza saberia instruir de soluções de engenharia (como o rebaixamento do eixo ou a criação de um estrado nivelado) que teriam resolvido o problema da acessibilidade sem destruir a talha setecentista. Mas, eu já não juro nada! Vivemos num tempo de "regional porreirismo da "obra", onde tudo se permite e tudo se cala, esperemos que tendo um interior com valores, pela maneira como se trata a porta histórica, que um dia não surja uma porta metálica gradeada, como em qualquer "abasto" do nascido em 1811, um tapa-ladrões antes do tapa-vento.
É de loucos pensar na recuperação do teto mudéjar e cometer um erro básico destes na porta. Este caso serve hoje de lição em cursos de restauro e conservação na Madeira, ilustrando como a "boa intenção" pastoral, quando desprovida de sensibilidade cultural, pode resultar num dano irreversível. O atual cónego já inscreveu uma cicatriz na longa história da Sé. "Parabéns"!
Mas agora vem o "pecado", que à luz da Lei é mortal:
- A Sé Catedral do Funchal é um dos monumentos mais protegidos do país. A sua classificação é de Monumento Nacional (o grau mais elevado de proteção em Portugal), classificado por decreto em 16 de junho de 1910 (nos últimos meses da Monarquia). É um dos raros exemplos de arquitetura manuelina que sobreviveu quase intacto, especialmente o seu teto de alfarge (estilo Mudéjar), considerado o melhor do país.
- O acto do Cónego, podia ter sido feito? Do ponto de vista atual e legal, a resposta é um não redondo! No entanto, a história do património tem "zonas cinzentas". Antes da classificação oficial como Monumento Nacional, a Igreja (o Cabido da Sé) tinha uma autonomia quase absoluta sobre o recheio do templo. As intervenções eram feitas com base na funcionalidade litúrgica ou no conforto dos fiéis, sem grandes critérios de conservação. Um pouco à luz do que acaba de acontecer.
- Depois de 1910, com a sua classificação, a Sé passou a estar sob a alçada do Estado (atualmente através da Direção Regional da Cultura - GR). Se o corte fosse feito no século XVIII ou XIX, o Cónego não precisava de autorizações externas do Estado. Ele respondia apenas ao Bispo ou ao Cabido. O foco era o "bem das almas" e a acessibilidade (as tais "velhinhas"), e não a integridade artística da talha.
- Mas o corte foi feito já no século XXI é, por lei, um crime patrimonial. Para qualquer alteração num Monumento Nacional, seria necessário Parecer Técnico de historiadores e conservadores-restauradores. Autorização da Direção Regional da Cultura (ou dos organismos centrais em Lisboa, antes da autonomia). Acompanhamento de obra por especialistas em restauro. Um carpinteiro consciente não faria isto, foi um "lenhador"? A solução é enviar o Cónego e o episódio para o passado? Só com um "Regresso ao Futuro".
Para resolver o problema do tropeço sem destruir a porta, mais uma vez digo, as soluções seriam simples e invisíveis, como criação de um "falso piso" (rampa suave de madeira) que nivelasse a soleira com o resto do nártex. Prefiro isso ao rebaixamento da ferragem original para que a porta pudesse rodar sem a travessa inferior.
A Sé já sofreu muitos "atentados" aceites na época, como a pintura de branco sobre paredes que originalmente teriam frescos ou a remoção de altares antigos para dar lugar a modas barrocas. O "serrote do Cónego" é apenas a face mais visível dessa mentalidade funcionalista. Foi um pensamento do passado.
Cá estamos, o "Pecado do Cónego" poderia ser bem mais um livro de enredo religioso de José Rodrigues dos Santos, porque suspeito que para isto o jornalismo regional não se mexe. O Cónego teve a sua vez de "abater a quinta" algo em voga, mas na porta da Sé nem a suspensão do PDM o salva no Estado Laico
Agora, a defunta parte da porta pode servir de relíquia para adoração do povo superior das obras.
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