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O rei sol da Calheta

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Com todo o respeito pela Calheta...

M

as depois de ler pela manhã a notícia que o problema da habitação na Madeira estava resolvido com os dois apartamentos que faltavam. O milagre tinha acontecido na Calheta, dei um suspiro de alívio e pensei escrever estas linhas que se seguem.  

O concelho, banhado pelo Atlântico a sul e a oeste, é o maior da ilha em extensão. Foi o lugar que João Gonçalves Zarco escolheu para doar terras ao filho. Tornou-se vila a 1 de julho de 1502, por foral de D. Manuel I, e desde então aprendeu a viver de frente para o sol.

Mas, às vezes na Calheta, o Sol nasce de esquina.  

Anda como o bêbedo, de canto a canto, até acertar.

No entanto, desce o Sol. Desce devagar, calcorreando os lombos e os vales, parede a parede. Lá de cima da crista do monte, como quem desce uma escada que se conhece de cor e salteado, chega ao mar largo. E toda a vila fica «borrifada» de medo, não pia para não o assustar.

Os que estimam a figura chamam-lhe o «rei», porque só ele é que sabe e tudo lhe tem que obedecer.  

Mas os que são mais afoitos a pisar o risco dos mandos da divindade denominam-no de “carrapato de corridas”, porque não perde uma oportunidade para lamber o traseiro dos chefes ou bajular os magnatas de dentro e de fora da terra.

Logo pela manhã, o «rei» emborca, antes que nasça o outro sol concorrente, uma garrafa do vinho da missa consagrado ao S. Justino’s Madeira Wines.  

Daquele feitio a rabiar as pias vestes de rei da vila, bamboleia a pança com prazer e coça a barba, pensativo, a ver quem trama naquele dia: um colega, uma pobre velhota que respondeu mal à missa, outro bêbedo seu concorrente que o mandou para o trabalho no meio de uma teimosia sportinguista, uma telha corrida que o vento norte desprendeu na última ventania…

O homem andava sedento de sobressair ao Sol verdadeiro.  

Tudo era pretexto para alumiar os campos, para ser o primeiro a secar o sereno das couves logo pela manhã.  

Dizia, com ar satisfeito: «Quem pode, pode. E só quem pode, manda.»

Até o vento o incomodava. Entendia que não respeitava a hora do seu banho, às oito horas da manhã, quando ele estava debaixo do chuveiro nu, sem vergonha, a pensar em quem faltava da lista para tramar ou chagar o juízo nesse dia.

Logo à noite, depois de se porem os dois sóis, podia remediar a consciência com um rol de Pais-Nossos e Ave-Marias, ou uma pregação mistagógica e um sermão radiofónico com mentiras sobre o Além. Porque do Aquém ele encarregava-se de inclinar à maneira do seu deleite.

Dizia-se que tinha sido agricultor, porque alguém se lembrava de o ter visto a puxar a canga.  

Dizia-se que era bêbado e louco. Mas quando falava, até os miúdos paravam de brincar — não por causa do que dizia, mas pela forma como desarticulava e botava palavreado em cada frase.

A Calheta, quando acorda nublada, é sinal do atraso do Sol verdadeiro.  

Mas não seja por isso. O «rei sol da Calheta», vangloriado, diz:  

«Estou cá eu na terra, que boto sol melhor que o sol dos céus.»

Por isso é que os mais antigos da terra começaram a questionar:  

«Porque será que nos últimos anos choveu tão pouco e a Calheta nunca está nublada?»

- Porque faça Sol, nublam os céus ou venha chuva, pelo menos um rei sol está sempre a mandar.

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