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alar da cena artística madeirense hoje é, inevitavelmente, falar de ausência. Não ausência de produção, porque ela existe, mas ausência de impacto, de risco, de confronto. Falta-nos aquilo que, em muitos contextos, define a arte como força viva com capacidade de incomodar.
A arte, historicamente, nunca foi neutra. Sempre dialogou com o seu tempo, refletindo tensões sociais, desigualdades e disputas de poder. Em momentos de maior repressão ou crise, esse papel torna-se ainda mais evidente: artistas transformam-se em agentes políticos, usando a estética como linguagem de denúncia e mobilização. No entanto, quando olhamos para a realidade local, a pergunta impõe-se: por que razão essa energia parece diluída na Madeira?
Uma possível resposta está naquilo que poderíamos chamar de ultraperiferia artística. Não apenas geográfica, mas também simbólica. A insularidade, aliada a uma certa estagnação política e cultural, tende a produzir um ambiente onde a repetição é mais segura do que a rutura. E a arte, quando deixa de arriscar, perde a sua alma.
Existe também um problema mais profundo, o medo da crítica social, da exposição, do conflito. Numa sociedade pequena, onde todos se conhecem e onde as estruturas de poder são mais visíveis e próximas, posicionar-se pode ter consequências reais. Assim, muitos artistas optam por um caminho mais confortável, uma estética despolitizada, individualista, muitas vezes estéril.
Mas essa escolha tem um custo. Uma arte que não questiona torna-se decorativa. Uma arte que não dialoga com o povo torna-se elitista. E uma arte que não incomoda deixa de cumprir uma das suas funções mais importantes, que é provocar reflexão.
A juventude, que poderia ser motor de mudança, surge frequentemente descrita como amorfa, não necessariamente por falta de talento, mas por falta de estímulo e de referências. Onde estão os modelos de inconformismo? Onde estão os espaços que incentivam a experimentação, o erro, a crítica?
A verdade é que a arte não precisa de ser panfletária para ser política. Às vezes, um gesto subtil, uma imagem simbólica ou uma intervenção no espaço público podem ter mais força do que um discurso explícito. O que falta, talvez, não é capacidade, mas a vontade de sair do lugar-comum, de desafiar narrativas estabelecidas, de assumir que criar também é tomar posição.
A relação entre arte e política é inevitável porque ambas lidam com o mesmo material que é a vida em sociedade. Quando um artista escolhe não se posicionar, essa escolha já é, em si, um posicionamento. A neutralidade, muitas vezes, apenas reforça o estado das coisas.
Por isso, a questão “onde andam os nossos Banksy?” não deve ser entendida literalmente. Não se trata de esperar por uma figura anónima que apareça com obras provocadoras nos muros da cidade. Trata-se de questionar por que razão ainda não criámos um ambiente social onde esse tipo de expressão seja possível.
Talvez os “Banksy” madeirenses existam, mas estejam silenciados. Ou dispersos. Ou desencorajados.
Ou talvez ainda estejam por nascer uma cultura artística madeirense que valorize mais a coragem do que a conformidade.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ter arte. Mas dificilmente teremos uma arte que faça história.
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