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Importa-se mão de obra barata, vulnerável, muitas vezes sem rede de apoio, e encaixa-se essa mesma mão de obra em condições que ninguém aceitaria para si próprio. Casas cheias, quartos improvisados, contratos ambíguos ou inexistentes, tudo otimizado, tudo rentável, tudo convenientemente fora do enquadramento das fotografias oficiais.
Mas não é difícil encontrar estas realidades. Não é preciso investigação profunda, nem denúncias complexas. Basta andar, olhar, reparar. Um estendal desproporcional, carregado de roupa suficiente para dezenas, preso a uma casa banal, é quase um símbolo. Um sinal visível de algo que toda a gente vê, mas que poucos querem realmente encarar.
E depois há o teatro. As empresas que dependem desta mão de obra sobem ao palco, falam de valores, de compromisso, de respeito pelo trabalhador. Como se o trabalhador fosse uma ideia abstrata, não aquela pessoa concreta, muitas vezes invisível, que vive comprimida entre paredes que maximizam lucro e minimizam dignidade.
Como é que isto se tornou aceitável? Como é que se normalizou um modelo onde a exploração é disfarçada de oportunidade, e a precariedade é apresentada como inevitabilidade?
E, sobretudo, quem lucra com isto enquanto levanta um copo “em honra do trabalhador”?
E não, isto não está escondido. Está à vista de todos. Está nos bairros, nas ruas, nas casas onde um único estendal denuncia o que se passa lá dentro, roupa suficiente para dezenas, comprimida num espaço que oficialmente deveria servir meia dúzia.
Mas a honestidade é inconveniente. Obriga a ligar pontos. Obriga a admitir que há empresas inteiras a funcionar com base neste equilíbrio perverso, reduzir custos à custa da dignidade e chamar-lhe eficiência, grupos sousas, afas, sociocorreia
A hipocrisia já nem se esconde, institucionalizou-se. Tornou-se prática aceite, quase admirada pela sua eficácia. Funciona, dá lucro, mantém-se.
Até quando é que todos fingem que isto é normal?
Porque enquanto houver aplausos suficientes, não há motivo para mudar.
E enquanto não houver vergonha, isto não pára.
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