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Sofá Autónomo

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ão somos governados; somos cuidadosamente coreografados por uma opereta regional onde a inflação sobe em falsete, os salários sussurram em dó menor e o público, disciplinado, aplaude sentado, embrulhado numa manta de silêncio. A peça chama-se “Autonomia Confortável”, um teatro de pioneiros da absurdidade onde o herói não protesta, repousa.

Se ficar no sofá combate a inflação, então a inércia é política monetária. Se o medo de ser visto a exigir dignidade protege o emprego, então a liberdade é um erro administrativo.

Entre um aumento do combustível e outro da renda, o cidadão pratica ioga cívica, respira fundo, ignora a dor e alonga a submissão. A rua? Um lugar perigoso, cheio de oxigénio e ideias, pode dar tonturas de liberdade. Melhor o lar acolchoado, onde as correntes são de algodão e já vêm incluídas na mobília.

A narrativa oficial, esse folheto turístico do conformismo, vende-nos prudência como virtude e silêncio como estratégia. Protestar dá trabalho, dizem; e se alguém vir? E se o nome escorregar para uma lista invisível onde o futuro encolhe e a reforma evapora como bónus de insularidade? Admirável: transformámos o pânico numa política pública e a passividade numa medalha de mérito.

O ecossistema é elegante na sua crueldade, preços de Mónaco, salários de rodapé, e uma pedagogia do medo que dispensa polícia, basta a imaginação. O governante nem precisa de reprimir, a plateia auto-censura-se com uma eficiência suíça. Chamam-lhe estabilidade. É, de facto, estável, nada se mexe, excepto o custo de vida.

Entretanto, a precariedade janta o futuro à luz de velas, e nós brindamos com chá morno ao conforto do estofado. “Não compliques”, aconselha a sabedoria local, como se a complexidade fosse o problema e não a fatura. E assim se institui a grande inovação madeirense, cidadania em modo avião, direitos em standby, indignação em poupança.

Há quem chame a isto prudência, eu chamo-lhe engenharia de obediência com acabamento "premium". É uma relação criativa com a realidade, rebatizamos as algemas como acessórios e o medo como patriotismo doméstico. O resultado é impecável, ninguém levanta a voz, ninguém levanta o corpo, ninguém levanta o país.

No fim, a conclusão é simples e cortante, quando o sofá torna-se política e o silêncio é moeda, a liberdade não desaparece, é trocada por trocos. E quem paga, como sempre, levanta-se tarde.

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