Acordem por favor.
A
realidade económica de muitas famílias madeirenses é, hoje em dia, marcada por uma asfixia silenciosa. Quando os vencimentos auferidos mal cobrem as despesas básicas de habitação, alimentação e energia, a palavra "futuro" deixa de fazer qualquer sentido. Deixa de haver espaço para planear, para poupar, para investir na educação dos filhos ou para ambicionar uma melhoria real nas condições de vida. O horizonte estreita-se ao limite máximo que é.. viver o dia a dia, sobreviver ao mês corrente e esperar que nenhuma emergência médica ou avaria doméstica deite por terra o frágil orçamento familiar.
Esta falta de objetivos e ambições a longo prazo, imposta pela precariedade e pelos baixos salários, não é apenas uma consequência económica, é o terreno fértil ideal para uma estratégia de controlo social profunda. Claro que é política. Ao retirar às pessoas a capacidade de projetar as suas vidas, o sistema cria o vazio perfeito para implementar a política do entretenimento constante. O pão e circo. É o primeiro passo para o aprisionamento psicológico e social do cidadão. Os madeirenses nem sentem o tempo a passar, mas ele passa em favor dos abusadores.
Com a proximidade do verão e a chegada do bom tempo, a ilha é deliberadamente inundada por uma agenda frenética de eventos que se atropelam uns aos outros. Não há tréguas, não há espaço para o silêncio ou para a reflexão. A ilha é coberta, de lés a lés, por uma manta de festividades onde tudo serve de pretexto: as paróquias com as suas festas religiosas, as Casas do Povo, as celebrações das produções agrícolas locais e dos produtos transformados, os festivais temáticos, os concertos de marcas e privados, os arraiais tradicionais, as iniciativas de angariação de fundos e os cartazes oficiais do turismo. Há tanta oferta em simultâneo que os eventos concorrem entre si, retirando-lhes o pleno sucesso organizativo, mas cumprindo escrupulosamente o seu verdadeiro propósito político, garantir a proximidade geográfica do entretenimento. Haja o que houver, há sempre uma festa ao virar da esquina.
Atenção que os meses de Inverno não deixam de ter muitos eventos indoor.
Este ambiente satura os sentidos e enclausura o madeirense numa redoma anestesiante. É a mecânica perfeita para fazer esquecer e, sobretudo, para não pensar. Substitui-se a discussão sobre a falta de médicos, o custo da habitação ou os salários de miséria pela música popular, pela dose de espetáculo e pelo consumo imediato. E aqui também há monopólios de bares e barraquinhas, alguns onde "acontecem" milhares de seguidores anestesiados, o céu dos abusadores.
A par deste clima de diversão perpétua, opera uma máquina de propaganda assente no apelo constante ao orgulho regional e ao isolamento cultural. A cultura e o destaque dos mesmos homologados pelo regime. Cultiva-se a narrativa de que esta pequena ilha tem sempre "o melhor do mundo" em tudo o que faz, quando importa e não sabe copiar. Esta hipérbole propagandística, repetida à exaustão, faz com que a generalidade da população perca mundo, perca termo de comparação e, consequentemente, perca a sua capacidade crítica. Quem acredita que vive no melhor dos mundos possíveis deixa de exigir melhorias.
Assim, a governação que frequentemente esquece os interesses reais dos madeirenses consegue passar impune. Os problemas estruturais da Região são camuflados pelo fogo-de-artifício e pela música de arraial. Para que este ciclo se mantenha inviolável, conta-se ainda com a complacência de um jornalismo que, salvo raras e honrosas exceções, se demite do seu papel fiscalizador para atuar como mero transmissor da agenda de festas e dos comunicados oficiais. É só ver páginas e páginas, edições após edições de entretenimento, onde lucram com o sistema.
Enquanto a ilha dança, o escrutínio falha, e o madeirense continua preso numa senda sem objetivos, ocupado demais a festejar para perceber a dimensão daquilo que lhe está a ser retirado. Retiraram rendimentos, futuro e a ilha.
Abra os olhos.
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