O meu texto:
Teve este comentário que quero abordar:
- https://www.facebook.com/groups/ocorrenciaseopiniao/permalink/3930807843889625/
N
Que fiquem claros os seguintes pontos:
O mito da "bolha" vs. a realidade do bloqueio. Não há uma bolha clássica prestes a rebentar. A resposta tem toda a razão do ponto de vista técnico-bancário. Em 2008/2010, o mercado colapsou porque assentava em crédito fácil e avaliações fictícias. Hoje, como o comentador bem nota, as casas estão a ser compradas maioritariamente a pronto pagamento (capital estrangeiro) ou com critérios de financiamento ultra-rigorosos da banca. Portanto, se não há sobre-endividamento da banca local, os preços não vão cair a pique. O mercado não vai "estoirar" para salvar as famílias madeirenses. O que temos é, como escrevi, um impasse técnico e moral.
A "construção acessível" como uma ilusão de controlo. O comentador toca num ponto fulcral e profundamente político, o desastre das políticas de habitação e a inevitável dependência do Estado. Ao dizer que ao madeirense resta apenas "a inscrição para acesso de moradias a custos controlados... e esperar", expõe uma realidade perversa, o GR tem uma política de controlo e dependência. Empurrar a classe média e os jovens para listas de espera da habitação pública (as chamadas cooperativas ou custos controlados) não é uma solução de mercado, é uma estratégia de subsidiodependência. Retira-se ao jovem a capacidade de ser emancipado e autónomo no mercado livre para o tornar dependente de uma senha do Governo Regional para ter teto.
O "no cards" e o êxodo silencioso. O meu reparo sobre a emigração jovem é o verdadeiro efeito colateral deste modelo. Quando o comentador diz que à classe média alta apenas resta "esperar", esquece-se de que quem tem qualificações não espera. Os jovens simplesmente jogam a toalha ao chão e saem da Região. A Madeira está a exportar o seu talento e a importar reformados estrangeiros de luxo e nómadas digitais. Sem esquecer da imigração barata que se acumula aos 10 e 15 por casa sem fiscalização. Economicamente, dá o "PIB do Albuquerque" mas, socialmente, é a receita para a desertificação demográfica e para o envelhecimento da ilha. Esta situação é um veneno para a Madeirae nenhum Governo que se siga pode corrigir, quem sai não volta.
Quem Ganha com Isto? O meu texto morde mais fundo na intenção política. Ao passo que a resposta assume o cenário quase como um "fado" inevitável do mercado e da má gestão, eu aponto o dedo à cumplicidade deliberada entre o Governo Regional e os grandes interesses da construção (os "amigos empreiteiros"). O mercado não ficou disfuncional por acidente, foi moldado para ser assim. Menos volume de vendas com margens de lucro pornográficas por unidade serve perfeitamente a quem constrói luxo, mas condena o habitante local.
O comentador trouxe os números e a frieza da banca para confirmar o meu pior receio, não haverá um milagre que faça os preços descer. Sublinha involuntariamente a gravidade do meu aviso. Se não há bolha para rebentar e o mercado livre morreu para os locais, a Madeira está a transformar-se num resort privado de luxo onde os locais servem as mesas e limpam os quartos, enquanto os seus filhos apanham o avião para a Islândia, Reino Unido ou canal da Mancha.
Finalizo agradecendo o comentário.
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