Type Here to Get Search Results !
A sintonizar estações...

Teoria da Calabaça

Moderação 0

  • https://www.dnoticias.pt/2026/6/12/495217-recuso-aceitar-o-conceito-de-overtourism-afirma-paula-cabaco/

A

 declaração de Paula Cabaço, presidente da APRAM, na Grande Conferência do Mar, é um exercício clássico de retórica corporativa e política. Ao afirmar "recuso aceitar o conceito de overtourism", a responsável tenta tapar o sol com a peneira, recorrendo a eufemismos técnicos para branquear uma realidade que qualquer residente na Madeira sente na pele todos os dias.

Há coisas fantásticas, mas é preciso pensar antes de proferir! Diz a Cabaço, o porto chega a receber 12.000 passageiros num único dia (às segundas-feiras na época alta), mas como metade faz excursões planeadas e os fluxos são escalonados, o impacto é mitigado. Dizer que 12.000 pessoas estão "geridas" porque metade entra em autocarros é ignorar a escala e a geografia do Funchal. Se 6.000 pessoas se espalham em excursões, significa que centenas de autocarros e carrinhas de turismo entopem simultaneamente os acessos ao Cabo Girão, ao Pico do Arieiro ou às principais levadas, destruindo a "singularidade" e a paz que esses locais deviam oferecer. Os outros 6.000 passageiros que não compram excursões desaguam a pé diretamente na baixa do Funchal. O resultado é a saturação imediata do Mercado dos Lavradores, das esplanadas e da Zona Velha. Gerir o fluxo de saída do navio não significa gerir a capacidade de carga do destino. O porto escoa as pessoas, mas a cidade e a natureza engolem o impacto.

Cabaço zela pela obra para o marido na Pontinha? Mais e maiores navios?

Mas a Cabaço prossegue no negacionismo semântico, mudar o nome não apaga o problema! Recusar o termo overtourism e focar o discurso no "equilíbrio" e no "planeamento integrado" não muda nada para além das palavras. Rejeitar a palavra overtourism é uma estratégia de relações públicas para evitar que a Madeira seja colada a destinos com reputação de "saturados" (como Veneza, Barcelona ou Dubrovnik). Contudo, o overtourism  não deixa de existir só porque a tutela se recusa a pronunciar o nome.

O fenómeno manifesta-se na Madeira através de indicadores claros que o planeamento portuário não resolve:

  • A proliferação desregulada do Alojamento Local (AL) para alimentar a massa turística expulsou os locais dos centros urbanos.
  • Filas intermináveis para tirar uma foto no Pico do Arieiro, trânsito caótico nas vias rápidas e saturação dos serviços públicos (como a recolha de lixo e o tratamento de águas).
  • Quando o residente começa a ver o turista como um estorvo para o seu quotidiano, o limite do overtourism já foi ultrapassado, independentemente da semântica oficial.

Cabaço relembra que o Porto do Funchal foi o primeiro do país a reabrir na pandemia e usar isso como prova de uma "estratégia de sucesso e cooperação". LOL, a senhora esquece que despachamos 24 cruzeiros que se concentraram nas Canárias?

De facto esta gente trabalha muito o esquecimento das pessoas. Esta é uma manobra de distração temporal. O facto de a APRAM ter sido ágil e eficaz na reabertura sanitária em 2021 merece reconhecimento, mas não serve de salvo-conduto para os problemas de capacidade de carga em 2026. O contexto atual de saturação não se resolve com os louros da gestão de crise de há cinco anos. Usar o passado pandémico para justificar a recusa em discutir a sobrecarga presente é fugir ao debate estrutural. Cabaço é ruído.

Ironicamente, a desconstrução mais eficaz ao discurso de Paula Cabaço veio dos seus parceiros de painel. Enquanto a presidente da APRAM pintava um cenário idílico onde o conceito de overtourism não entra, Pedro Vieira (da Lindley) foi claro ao alertar.... "o turismo de cruzeiros só é bom se for bom para quem visita e para quem vive no local". Este é o ponto fulcral que a retórica oficial falha em admitir, quem vive na Madeira já não está a sentir o turismo como algo puramente "bom".

A recusa de Paula Cabaço é tipo as negações e desvalorizações de Albuquerque, a recusa em aceitar o conceito de overtourism serve propósitos políticos e económicos, manter a máquina a faturar e proteger a narrativa de que o Governo Regional tem tudo sob controlo. Mas ao ignorar o diagnóstico, a tutela inviabiliza a cura. Planear excursões não é o mesmo que gerir a sustentabilidade de uma ilha que tem limites físicos e sociais bem definidos.

Parece que vai por aí uma ofensiva para tornar os madeirenses nuns patos.

Enviar um comentário

0 Comentários
* Sujeito a moderação. Seja cordial, educado e não faça spam.