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A palmeira não é nossa e não fica bem.

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 palmeira não tem raízes nesta terra vulcânica que durante milénios produziu laurissilva, uma floresta tão antiga, tão rara, tão extraordinariamente nossa que a UNESCO lhe deu o título de Património Mundial da Humanidade.

A palmeira não é madeirense. Nunca foi.

A flora natural da Madeira é uma das mais ricas e singulares do planeta. Temos o til, o loureiro, o vinhático, o barbusano, o cedro-da-madeira. Temos plantas que não existem em mais lado nenhum no mundo. Temos uma identidade vegetal que faz investigadores viajarem de todo o mundo para a estudar, enquanto nós, calmamente, a substituímos por palmeiras que qualquer Dubai de segunda escolha também tem.

A palmeira chegou acompanhada. Chegou com os apartamentos pretos.

Sim, pretos. O arquiteto que primeiro propôs pintar um edifício de preto na Madeira, numa ilha atlântica, com sol, com calor, com luz que ofusca, esse arquiteto merecia uma conversa séria sobre física básica e bom senso estético. Mas foi aprovado. Foi construído. Foi fotografado. Foi para o Instagram.

E depois veio outro. E outro. E mais um.

Hoje temos uma costa sul que parece um mood board de um promotor imobiliário que foi uma vez ao Dubai, ficou impressionado com o calor e os espelhos, e pensou: isto era mesmo o que faltava a uma ilha no Atlântico Norte.

Prédios pretos. Vidros espelhados. Palmeiras à volta.

Palmeiras que não são nossas. Em prédios que não combinam com nada. Numa ilha que tem uma das paisagens mais bonitas da Europa, e que está a fazer de tudo para disfarçar esse facto.

A Madeira tem séculos de identidade arquitetónica. Tem as casas de colmo do Paul da Serra. Tem os palheiros da Santana. Tem as quintas com os seus muros de basalto negro, esse sim, negro com história, negro com alma, negro que nasceu do interior desta terra. Tem as levadas que são uma obra de engenharia humana que envergonha a maioria dos países do mundo.

Tem tudo isso. E escolheu as palmeiras. Mas ficam bem no Instagram. Fica bem no Instagram o cocktail na piscina infinita com vista para o mar contaminado. Fica bem no Instagram o pôr do sol por detrás da palmeira que não é nossa. Fica bem no Instagram o apartamento preto com acabamentos de luxo a dez minutos de uma ETARE que não funciona.

A Laurissilva não fica bem no Instagram. É densa, é sombria, é húmida, é estranha para quem não a conhece, e é exactamente por isso que é uma maravilha. Tem trezentos mil anos de existência nesta ilha. Sobreviveu à glaciação quando na Europa tudo morreu. Guardou espécies que o mundo perdeu.

Da próxima vez que virem uma palmeira a ser plantada em frente a um edifício novo na Madeira, perguntem ao promotor imobiliário se sabe o nome de uma única planta endémica da ilha.

O silêncio que se vai seguir diz tudo sobre quem está a decidir como a nossa terra deve parecer.

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