O dia em que alguém pediu desculpa no Parlamento
Num Parlamento onde pedir desculpa é visto como fraqueza, assumir responsabilidade quase um ato exótico, a atitude de Élvio Sousa merece aplauso. Pediu desculpa. Com clareza. Sem teatro. Publicamente. E convém sublinhar o detalhe mais incómodo para muitos, mesmo quando não era obrigado a fazê-lo.
Num hemiciclo onde a regra é negar até à última vírgula, empurrar culpas para comissões técnicas e esperar que o tempo faça o seu trabalho sujo, este gesto soa quase fora de época. Um momento raro em que a política parece lembrar-se que ainda existe uma coisa chamada ética, essa entidade abstrata que não consta nos contratos de assessoria.
O contraste é brutal. De um lado, alguém que reconhece limites. Do outro, um Parlamento povoado por figuras que escapam à justiça com a elegância de quem tem bons contactos e melhores advogados, escritórios a 1.400 euros à hora, alegadamente pagos com dinheiros públicos. Dinheiros esses que, numa versão menos cínica da realidade, estariam a reconstruir ETARs, a resolver a crise da habitação, ou a garantir saúde pública verdadeiramente gratuita, com exames incluídos, sem listas de espera que envelhecem mal.
Pedir desculpa, hoje, tornou-se um luxo ético. Não pesa no orçamento, não precisa de ajuste direto, não passa por conselho de ministros, mas exige algo cada vez mais escasso, carácter. Élvio Sousa mostrou que ainda há quem perceba que o poder não suspende a responsabilidade; pelo contrário, devia amplificá-la.
Num sistema onde tantos nunca erram, nunca sabem, nunca viram, nunca ouviram, e muito menos pedem desculpa, este gesto simples torna-se perturbador. Perturbador porque expõe o silêncio dos outros. Porque desmonta a narrativa de que pedir desculpa é sinal de culpa e não de maturidade. Porque lembra que o verdadeiro escândalo político raramente está no erro, mas na fuga sistemática a qualquer forma de responsabilidade.
Talvez o maior problema desta atitude seja mesmo esse, levanta demasiado o padrão. E há quem prefira um Parlamento confortável na mediocridade a um onde alguém, de vez em quando, ainda se lembra de pedir desculpa. Parabéns Élvio! Continuas a ser o melhor politico que temos aqui na região. Um bem haja para ti. Em frente e sem medo.
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