É
tempo do Estado abandonar a visão da assistência social como uma despesa e passar a encará-la como um investimento estratégico. Quando falamos de cuidadores informais, aqueles que abdicam da sua vida profissional e pessoal para cuidar de familiares dependentes, não estamos a falar de caridade; estamos a falar de um serviço público invisível que poupa milhões de euros aos contribuintes. Reconhecer o quadro legal é uma coisa, passar à prática é outro. O principal obstáculo é o cuidador se entreter com burocracia estúpida quando às vezes nem sair de casa pode para satisfazer as exigências... muitas vezes sem resultados.
Um doente em casa, cuidado por um familiar com o apoio logístico e financeiro mínimo, representa uma fração do custo de uma cama num hospital de retaguarda ou numa instituição de longa permanência, é a matemática que a Saúde Pública não quer ver, a par do aproveitamento público que fazem muitas vezes.
Um cuidador apoiado consegue prevenir complicações de saúde básicas que, de outra forma, acabariam em urgências hospitalares sobrelotadas. Isto significa menos internamentos, se calhar a gosto dos que querem vender o Hospital Nélio Mendonça.
Fora a progressão de algumas doenças, manter o cidadão no seu ambiente familiar retarda o declínio cognitivo e físico, reduzindo a necessidade de cuidados médicos intensivos, é a dignidade em vez da institucionalização.
O Estado nega, muitas vezes, apoios financeiros dignos aos cuidadores, alegando falta de orçamento ou tornando inacessível por exigências tremendas. No entanto, ignora que cada cuidador que "colapsa" por exaustão física ou mental transforma-se em dois novos utentes para o sistema, o dependente, que terá de ser institucionalizado a um custo elevadíssimo, e o próprio cuidador, que entrará no ciclo de baixas médicas e apoio psicológico. Isto é a realidade, ser cuidador informal é extenuante e acaba com a vida pessoal do mesmo.
Os apoios financeiros diretos não devem ser apenas ajudas de custo simbólicas, devem reconhecer a perda de rendimento de quem cuida. Facilitar o acesso a camas articuladas, cadeiras de rodas e consumíveis sem a burocracia asfixiante atual deve ser um imperativo, bem como uma instituição que faça a sua gestão. Porque há fases que começam e outras que acabam. É importante o descanso do cuidador, deve criar redes de substituição que permitam ao cuidador ter tempo para a sua própria saúde ou somente arejar da tensão permanente.
Apoiar quem cuida não é um gasto, é a forma mais inteligente e humana de gerir os recursos da Saúde e da Segurança Social. Ignorar o cuidador informal é condenar o sistema público ao colapso financeiro e moral.
É preciso uma revisão completa de muitas atitudes que levam as pessoas ao extremismo, talvez esta seja uma.
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