E m julho de 2023, a Câmara Municipal do Funchal do Calado & CIA inaugurou com pompa o Observatório e Parque de Astronomia. Foram 95 mil euros vindos do Orçamento Participativo, apresentados como um passo decisivo para colocar a Madeira na “rota da investigação científica”. Falava-se de uma cúpula robotizada, de equipamento moderno, da possibilidade de acompanhar cometas e asteroides (isto foi feito, mas pelos Açoreanos). Três anos passados, o cenário é outro: portas fechadas, silêncio absoluto e a eterna justificação da “manutenção”.
Na prática, o Observatório nunca funcionou como foi anunciado. As alegadas atividades científicas resumem-se a sessões ao ar livre, recorrendo aos mesmos telescópios que já existiam, eu próprio observei pelo cinzento há mais de 10 anos no Porto Santo. A cúpula, essa, permanece fechada, como se fosse um adereço de um projeto que ficou a meio.
Pelo meio, a entidade gestora vai mudando de nome com uma facilidade curiosa — primeiro Associação de Astrónomos Amadores, depois Associação de Astronomia, agora Associação de Astronomia e Astrofotografia. O que não muda é o modelo: atividades “para associados” que, na prática, funcionam como experiências turísticas pagas, com preços, donativos sugeridos e público maioritariamente visitante. Ah! E também visitas de estudo pelas juventudes partidárias como o PSD e o CDS. Tudo isto enquanto continuam a existir apoios públicos para iniciativas que deveriam ser gratuitas e acessíveis à população. O contribuinte paga, mas não tem acesso e todos os pedidos de visita são chutados para o calendário de atividades que não se vê em lado nenhum.
Quanto à transparência, o cenário é ainda mais nebuloso. A página de Facebook desapareceu sem explicação, substituída por outra sem qualquer atividade publicada. Não há relatórios públicos, não há esclarecimentos regulares, não há comunicação visível. Para quem gere um equipamento financiado com dinheiro público, desaparecer das redes sociais é uma forma peculiar de prestar contas. A pergunta impõe-se: para onde vai o dinheiro? O município financiou a cúpula e o equipamento e continua a pagar através de apoios associativos. A associação garante que tudo está “em manutenção” e que a abertura acontecerá “ao longo do ano”. Entretanto, continuam a surgir atividades pagas dirigidas a turistas. Se o Observatório não está operacional, o apoio público serve exatamente para quê?
O discurso inicial foi claro: colocar a Madeira na rota da investigação científica. Três anos depois, a única rota bem definida é a do turismo astronómico, muitas vezes com ponto de encontro junto ao Museu CR7 ou num iate (que piada). Se a cúpula é robotizada, talvez esteja simplesmente programada para abrir apenas quando aparece um grupo organizado… e um cartão de crédito.
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