Quórum, democracia e alarmismo político


U m congresso sem quórum momentâneo transformou-se (link), subitamente, em prova de “falência política”. Convém travar o dramatismo. Desde quando um atraso procedimental equivale a uma sentença final sobre a vitalidade de um partido?

O texto em causa identifica beneficiários claros de uma suposta derrocada, PSD, JPP, Chega e sectores da comunicação social, mas fá-lo a partir de generalizações emocionais, tom corrosivo e escassa proposta construtiva. A crítica existe, mas carece de operacionalização de soluções, dados comparativos históricos e vozes alternativas que sustentem as conclusões apresentadas. Um episódio organizativo isolado não define um partido, nem problemas logísticos equivalem a falência política.

Um congresso é, antes de mais, espaço de debate, conflito de ideias e construção programática. Não é um desfile de entusiasmo obrigatório nem uma contagem de presenças ao minuto. Confundir presença física num momento específico com força política é um erro recorrente. Governar mede-se por ideias, continuidade e capacidade de correcção, não por fotografias ocasionais.

A falta de quórum é apresentada como “aberração”, mas o próprio argumento admite que adiamentos são prática comum em vários partidos. Ou é normal, ou é catastrófico, as duas leituras não coexistem no mesmo raciocínio sem comprometer a coerência lógica. Adiar votações para garantir maior participação é sinal de responsabilidade institucional, não de colapso.

Afirmar que quem não votou “não acredita no que escreve” é inferência gratuita. A ausência pode resultar de discordância, cansaço, constrangimentos de agenda ou simples divergência política. Democracia não é unanimismo, nem política é acto de fé.

Transformar um procedimento reconhecidamente comum numa narrativa de decadência estrutural é erro lógico, causal e conceptual. A crítica interna é legítima, mas quando se limita a sugerir desastre sem critérios claros, enfraquece mais do que fortalece. Um congresso mede-se pela qualidade das decisões e pela capacidade de as concretizar ao longo do tempo.

Menos histeria e mais razão serviriam melhor o debate público. A democracia vive de processos sólidos, não de alarmismo mediático. Adiar para incluir é governar com responsabilidade. Divergência e correcção fazem parte de qualquer sistema democrático maduro. O essencial é garantir decisões legítimas, inclusivas e politicamente consequentes.