Votaram no Presidente para demitir o "Regional"?


M as que estupidez que se ouve nos cafés desde as presidenciais de 18 de janeiro de 2026. Ouvi dizer que muitos juram ter votado em André Ventura “para expulsar o Miguel Albuquerque”. Pois claro: Ventura candidatou-se a Presidente da República; Albuquerque é Presidente do Governo Regional da Madeira. São cargos tão parecidos quanto um farol e um micro-ondas, ambos iluminam e aquecem, mas não confie em nenhum deles para fazer o jantar.

Alguém explique a lógica: foi às urnas para trocar um tacho regional por um timbre presidencial? A confusão é deliciosa: o eleitorado madeirense, que vota regionalmente no “imperador local”, transforma-se nas presidenciais em caçador de corruptos com mira apontada a Lisboa. Acreditar que um Presidente da República, com papel de árbitro constitucional, vai gerir o dia-a-dia da Madeira como um líder regional é querer que o árbitro marque penalties e depois jogue no mesmo time. Ridículo.

E mais: o entusiasmo com a “limpeza moral” tem cheiro a reciclagem política, muitos rostos do Chega foram ontem PSD, e há uma longa lista de nomes com processos, dívidas e polémicas que não evaporam com votos. A imprensa já documentou vários casos envolvendo deputados do Chega e problemas com a justiça; hipocrisia é um traje que lhes assenta bem.

A realidade é simples e cínica, o PPD-Madeira perdeu músculo, expulsou aficionados de tachos, e esses ex-tacho-boys encontraram no Chega um palco novo para continuar a peça. A oposição ao “imperador regional” muitas vezes não foi moral, foi pessoal: quem ficou sem rendimento público mudou de claquete e agora aplaude-se como dissidente.

Que moral tem um eleitor que só reconhece corrupção quando o tacho lhe foi retirado? É a arte portuguesa da conveniência: acusar corrupção quando nos falta o subsídio do balcão. Enquanto isso, o Presidente da República continua com a toga de moderador e o Presidente do Governo Regional com o pontapé do poder local, são mundos distintos. E se queriam realmente “expulsar” alguém, comecem por expulsar a ignorância cívica do café.

Votar confundindo cargos é como comprar um bilhete de avião e reclamar que o comboio atrasou. Ridículo, tragicómico e, acima de tudo, deliciosamente Madeirense.