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O céu de arame

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ós, madeirenses, temos motivos de queixa desde sempre, mas usando onde dói, o que dizer das casas de milhão com fios a rasgar a paisagem? A paisagem da Madeira é o seu maior ativo. É por ela que se vendem casas de "milhão para cima", o turismo, que se atraem nómadas digitais e que se sustenta a imagem de um jardim flutuante. No entanto, basta levantar o olhar para encontrar uma realidade que contradiz esse prestígio, uma rede caótica de cabos elétricos e de comunicações que rasga o horizonte, "cosendo" as encostas com um desleixo visual que pertence ao século passado. É assim porque é mais barato para ganhar dinheiro, gerar lucro para os acionistas. Mas temos antecedentes para mudar!

Em 2017, depois das tragédias dos incêndios e tempestades no Continente, relatórios técnicos foram claros a este respeito, meter os cabos das redes no solo não era um capricho estético, é uma questão de segurança nacional. Cabos aéreos são as primeiras vítimas de quedas de árvores e ventos fortes, isolando populações precisamente quando elas mais precisam de comunicação e energia. O desastre recente provocado pelas tempestades no continente veio provar (mais uma vez) que, entre o estudo e a execução, ficou um abismo de inação.

A Madeira vive na ilusão do progresso basta olhar para a pobreza, o modelo de salários baixo e, entre outros, estes arames no céu, a situação ganha contornos de ironia. Como pode uma região que se posiciona como um destino de luxo e resiliência permitir que moradias de alto padrão convivam com postes de cimento e "mamarrachos" de fios à porta de casa? Repito, o madeirense vive isto há muito tempo, mas agora foco as casa de milhão para doer. A poluição aérea não é apenas um "ruído" na fotografia é um ponto de falha na infraestrutura... quando vem a catástrofe. Numa ilha fustigada por aluviões e ventos cíclicos, o 20 de fevereiro, etc, manter a rede no ar é manter a nossa vulnerabilidade exposta. Isso já foi estudado no continente e nós somos uma ilha!

Agora que o PRR se vai extinguido, é hora de mostrar o forrobodó do dinheiro entre amigos o mal que faz à Região, com tanto dinheiro embeveceram e não criaram resiliência. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) deveria ter sido o motor para esta transformação. O nome diz tudo: Resiliência. No entanto, as verbas foram canalizadas para betão e grandes obras de visibilidade política imediata, esquecendo o que está debaixo da terra (ou o que deveria estar). Perdeu-se a oportunidade de criar valas técnicas integradas em todas as renovações de estradas, algo que custaria uma fração do valor se feito de forma planeada.

Continuamos a enterrar milhões em asfalto, mas deixamos o "céu de arame" intacto. Adere-se ao estudo quando a vontade política superar o imediatismo das inaugurações e a ganância dos amigos de poder que mandam nos orçamentos. Até lá, a paisagem da Madeira continuará a ser vendida a preço de ouro, mas entregue com uma moldura de cabos pretos, lembrando-nos diariamente que a nossa modernidade ainda está pendurada por um fio.

Daqui para a frente, muitos vão provar como se perdeu um tempo de verdadeiro desenvolvimento com o PRR.

P.S.: onde anda aquela trupe da Prada do Gabinete da Paisagem? Não disseram nada ao PRR/ Governo?

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