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A escassez das lapas na Madeira – Parte II

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De recurso local a produto de exportação.

I

mporta, também esclarecer um equívoco: nem toda a produção se destinava ao consumo regional. Grande parte das lapas descarregadas diariamente foi canalizada para exportação. Ao transformar um recurso tradicionalmente local num produto com escala comercial alargada, alterou-se completamente o equilíbrio entre disponibilidade natural e exploração económica. O limite de 200 kg por embarcação revelou-se claramente exagerado. Não foi devidamente ponderado se o stock existente conseguiria suportar esse volume de capturas.

A responsabilidade das decisões políticas.

Importa dizê-lo com clareza: a inexistência atual das lapas prende-se exclusivamente com erros políticos que fizeram da lota uma verdadeira alfândega, ignorando quem, com conhecimento técnico e científico — e não meramente empírico — alertou para as consequências previsíveis destas decisões.

Quando a política se sobrepõe à ciência, substitui-se prudência por imediatismo e algum imperialismo. A exploração tradicional, ainda que informal, funcionava de forma quase autorregulada pelo mercado e pela própria limitação humana da apanha. A nova regulamentação introduziu um modelo de exploração intensiva, sem estudos robustos de biomassa que sustentassem os limites definidos. O resultado está à vista: há cerca de um ano que não se pode apanhar lapas na Madeira.

Uma medida extrema, que penaliza profissionais, restauração e tradição gastronómica — tudo porque, no momento certo, não se quis ouvir quem alertou para o risco.

Uma lição que não devia ser esquecida.

Os recursos marinhos não são inesgotáveis. A lapa depende de um equilíbrio delicado entre recrutamento natural e pressão de captura. A gestão das pescas exige prudência, acompanhamento científico contínuo e humildade política para reconhecer limites ecológicos.

Infelizmente, neste caso, falhou-se.

E convém terminar com uma reflexão que resume tudo:

“A ciência falha, mas formula hipóteses enquanto a política, sem dar hipóteses, falha redondamente.”

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