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Quem queria saber mais tinha de procurar. Jornais impressos, rádio, e pouco mais. A televisão era escassa, os meios eram poucos, e o acesso ao conhecimento estava longe de ser democrático. Para aprender além da escola, era preciso ir à biblioteca. E mesmo isso nem estava ao alcance de todos. As bibliotecas públicas eram raras, as privadas pertenciam a universidades e a gente abastada, e o resto da população ficava a observar de fora, como quem olha para uma porta fechada sem ter a chave.
Em tempos de ditadura, a situação agravava-se. A informação não era apenas escassa; era vigiada, manipulada e censurada. A liberdade de imprensa era uma ficção. Dizer o que não convinha ao poder podia significar perseguição, prisão ou pior. A verdade não circulava livremente: era amarrada, cortada e domesticada para servir a ordem imposta. Nesse cenário, ignorar era muitas vezes consequência. Saber era resistir.
Hoje, a realidade é outra. Vivemos num tempo em que a informação está disponível em múltiplos formatos e plataformas. Qualquer pessoa pode comprar um jornal, ouvir rádio, ver televisão, consultar bibliotecas públicas e, sobretudo, aceder à internet em segundos. O conhecimento deixou de ser um luxo de elite para se tornar um recurso comum. A curiosidade já não depende do dinheiro, mas da vontade. A distância entre a dúvida e a resposta encolheu até quase desaparecer.
E é precisamente aqui que a questão se torna incómoda. Com tanta informação ao alcance de todos, como se explica a persistência da ignorância? Hoje, ser ignorante já não é uma fatalidade social. Não é, na maioria dos casos, falta de meios. É falta de esforço. É preguiça intelectual. É recusa em pensar, em verificar, em aprender, em duvidar do que nos serve de enfeite e não de verdade.
A liberdade trouxe-nos uma responsabilidade que muita gente continua a desperdiçar. Nunca tivemos tanto acesso ao saber. Nunca foi tão fácil confirmar factos, cruzar fontes e ampliar horizontes. Por isso, a ignorância de hoje é mais grave do que a de ontem, ontem, muitas vezes, era imposta; hoje, demasiadas vezes, é escolhida. E essa escolha, sendo livre, é também vergonhosa.
Não se pode aceitar que a ignorância continue a ser tratada como destino. Num tempo em que a informação está democratizada, permanecer ignorante é uma renúncia voluntária à própria dignidade. E isso, sim, é inaceitável.
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