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A sintonizar estações...

Cavar com style daqui para fora.

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á uma pergunta que incomoda porque é simples demais para ser escondida, por que razão paga o Estado tão bem quem decide e tão mal quem trabalha? Em Portugal, e sobretudo na Madeira, a resposta vai-se tornando óbvia para quem olha para os resultados e não para os discursos. Quando os políticos recebem muito, os professores pouco, os trabalhadores menos ainda e os serviços públicos ficam entregues à penúria, o país não está a premiar competência. Está a premiar distância.

A proposta é clara, e o choque é precisamente esse: inverter a lógica. Se o trabalho que sustenta a escola, o hospital, a obra pública, o balcão, a limpeza, a manutenção e o atendimento fosse realmente valorizado, talvez o Estado deixasse de parecer um palco de privilégios e voltasse a ser uma máquina de justiça. Não é normal pedir sacrifício permanente a quem vive do salário e oferecer conforto institucional a quem vive da retórica. Não é normal exigir virtude aos de baixo e impunidade aos de cima.

O problema não é apenas moral. É estratégico. Um governo que despreza professores, técnicos, enfermeiros, operários e funcionários públicos destrói a própria base de estabilidade social. Depois admira-se da crise da habitação, dos salários baixos, das listas de espera, das escolas degradadas, das esquadras sem meios, dos hospitais exaustos e das infra-estruturas a cair aos pedaços. Nada disto nasce por acaso. Tudo isto resulta de uma prioridade política clara: proteger o poder, adiando a dignidade.

Há também um padrão que não deve ser fingido. Na Madeira, muitos já reconhecem o mesmo circuito fechado de influência, propaganda e autoprotecção que durante décadas alimentou o culto do poder, a normalização da obediência e a ideia absurda de que a Região pertence a meia dúzia de donos da narrativa. O PPD/PSD, com as suas continuidades, as suas redes e o seu aparelho, não pode ser lido fora dessa longa cultura de mando. Quem se habituou a governar como se fosse eterno acaba sempre por tratar o povo como decoração.

É por isso que a verdadeira reforma não começa em slogans. Começa no orçamento, no salário, na escola, no hospital, no serviço público e no respeito concreto por quem trabalha. Começa quando o Estado deixa de servir carreiras políticas e passa a servir cidadãos. Começa quando deputados e governantes deixam de viver acima da realidade e passam a responder por ela. O resto é teatro.

Se o país quer inteligência, justiça e futuro, tem de pagar melhor a quem produz dignidade e pagar menos a quem apenas administra a sua ausência. Sem isso, fala-se muito de democracia, mas governa-se como sempre: contra os muitos e para os poucos. E isso, em qualquer linguagem séria, chama-se degradação do Estado.

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