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A lógica é velha e suja. Dizem que quem recebe apoios é preguiçoso. Dizem que quem tem pouco dinheiro vale menos. Dizem que quem vem de fora rouba trabalho. Dizem que quem não tem carro é menor. Dizem que quem discorda do poder deve calar-se. É um catálogo de medo, ignorância e abuso. E, no fundo, serve sempre ao mesmo: dividir para mandar.
A Madeira não pode aceitar essa mecânica. Quando a conversa pública rebaixa o pobre, o trabalhador e o diferente, o espaço cívico apodrece. Quando se trata uma pessoa pelo saldo bancário, pela cor, pela origem ou pelo meio de transporte, já não estamos perante opinião. Estamos perante desumanização. E quando alguém ameaça castigo a quem critica o poder, a máscara cai por completo: isso já é autoritarismo puro.
Os apoios sociais não existem para premiar a preguiça. Existem para impedir a miséria. São uma rede de proteção para quem perdeu emprego, para quem ganha pouco, para quem adoece, para quem envelhece sem amparo e para quem trabalha, mas não chega ao fim do mês. Uma sociedade séria não glorifica a crueldade. Uma sociedade séria corrige desigualdades.
Também é falso transformar estrangeiros, turistas ou clientes em inimigos. O problema não está na origem das pessoas. O problema está na exploração, nos salários baixos, na habitação cara e numa economia que pede muito a quem tem pouco. Culpar o mais fraco é fácil. Resolver o problema exige coragem.
Há ainda uma intenção política por trás deste discurso. Alimenta-se o povo com desprezo pelos pobres, medo da diferença e veneração do poder. Depois pede-se obediência. Depois chama-se “ordem” ao silêncio. Depois chama-se “mérito” à exclusão. Este truque é antigo. Só muda o tom.
A resposta tem de ser clara. Madeira precisa de respeito, lei, trabalho digno, salários justos, habitação acessível e liberdade de expressão. Precisa de uma política que proteja pessoas, não preconceitos. Precisa de uma rua menos cobarde e mais consciente. Quem quer mandar numa terra tem de servir todas as pessoas. Não apenas os que batem palmas. Não apenas os que têm dinheiro. Não apenas os que obedecem.
O futuro não se constrói com ódio. Constrói-se com justiça.
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