- https://www.facebook.com/gil.canha/posts/pfbid02ppHbirB6vj8oRh1jRs7KoErLaw4y7PWw4A8sVfwBq7TjfnXtejPRz8ihLm6Bfz77l
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O discurso de Gil Canha parece partir de uma ideia curiosa, o Norte da Madeira deve existir como postal turístico permanente, habitado por vacas felizes, hortas fotogénicas e silêncio absoluto — mas nunca por pessoas que precisem de emprego, habitação, investimento ou desenvolvimento económico. Porque aparentemente os habitantes de Ponta Delgada devem viver de brisa atlântica e contemplação paisagística.
A contradição é quase artística. Diz-se que o projeto é um atentado ao território, mas o próprio texto admite que existe enquadramento legal, licenciamento e publicação oficial em Diário da República Regional. Então afinal em que ficamos? O problema é jurídico ou emocional? É urbanismo ou ciúme político mascarado de ecologia poética?
Chamar “selvajaria urbanística” a um edifício habitacional aprovado pelas entidades competentes é o equivalente político a entrar num restaurante licenciado e berrar “crime gastronómico” porque não se gosta da decoração. Muito barulho, pouca lógica.
E depois surge o clássico paternalismo sulista, gente habituada a decidir tudo a partir do eixo Funchal-Câmara de Lobos aparece agora a explicar ao Norte como deve viver, crescer e respirar. Curioso. Quando o desenvolvimento acontece no Sul chama-se “progresso”. Quando aparece no Norte vira imediatamente “ameaça ambiental”. A paisagem só é sagrada quando não mexe nos quintais ideológicos de certos comentadores profissionais.
Ninguém defende destruição descontrolada. Mas também ninguém sério pode defender que o Norte permaneça congelado no século passado para satisfazer romantismos turísticos de fim de semana. As pessoas em São Vicente trabalham, investem, criam empresas, pagam impostos e querem oportunidades. Não vivem dentro de uma brochura turística.
O mais irónico é ver certos moralistas políticos tratarem qualquer investimento privado como conspiração maquiavélica digna de filme barato. Um prédio com apartamentos transforma-se num apocalipse civilizacional. Falta apenas convocarem arqueólogos, astrólogos e exorcistas urbanísticos.
A Madeira precisa de equilíbrio, não de fanatismo paisagístico seletivo. Proteger o território não significa transformar o Norte numa reserva museológica para contemplação alheia enquanto os jovens vão embora por falta de habitação e investimento.
Porque no fim disto tudo, há uma pergunta simples que desmonta o espetáculo, querem um Norte vivo… ou apenas bonito nas fotografias?
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