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São Vicente, sucursal do absurdo.

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  • "São Vicente deu uma lição de democracia"
  • https://www.dnoticias.pt/2025/10/25/467969-sao-vicente-deu-uma-licao-de-democracia/

E

m teoria, uma câmara municipal serve para administrar um concelho. Em São Vicente, decidiu-se experimentar um conceito mais inovador, transformar a autarquia num laboratório sociológico onde o caos administrativo compete diariamente com o teatro amador da vaidade política. O resultado é fascinante. Nem Kafka, depois de três ponchas e uma crise existencial, conseguiria escrever um guião tão delirante.

A promessa era épica, acabar com o compadrio, limpar o nepotismo, expulsar os fantasmas da velha política. O problema é que a cruzada moral durou menos do que um iogurte deixado ao sol em Agosto. Mal entrou no poder, a nova administração descobriu a forma suprema de combater o alegado favorecimento, praticá-lo com mais entusiasmo, mais barulho e menos subtileza. É quase arte conceptual. Denunciar o sistema para depois lhe alugar um apartamento com vista mar.

O actual executivo comporta-se como uma mistura improvável entre reality show político e reunião de condomínio depois de desaparecer o dinheiro das quotas. A disciplina administrativa evaporou-se, a coordenação interna parece escrita por um comité de pombos nervosos, e a gestão municipal entrou oficialmente na fase “logo se vê”. Pelo caminho já se perderam vereadores, consensos, estabilidade e provavelmente metade das passwords da Câmara.

E depois surgiu o momento que ficará para a antropologia política madeirense, a promoção familiar apresentada com a solenidade de uma revelação divina. O combate ao alegado clientelismo acabou transformado numa empresa familiar com organigrama emocional. A moral da história é simples, em São Vicente, o nepotismo não morreu; apenas mudou de camisola e abriu conferência de imprensa.

Entretanto, o concelho continua suspenso numa espécie de túnel temporal onde o progresso entra, olha à volta e decide ir embora. Serviços emperrados, ambiente tóxico, guerrilhas políticas de café e uma gestão tão desorganizada que até o Pateta da Disney, armado apenas com um ancinho e boa vontade, provavelmente apresentaria melhores indicadores de governação.

Mas a verdadeira obra-prima é o ambiente social. A política local deixou de funcionar como administração pública e passou a funcionar como campeonato distrital de ressentimento colectivo. Cada esquina parece um debate radiofónico às três da manhã, gritos, paranoia, acusações e pessoas convencidas de que governar consiste em perseguir críticos enquanto a realidade arde discretamente ao fundo.

São Vicente tornou-se um curioso estudo sobre aquilo que acontece quando a indignação substitui competência e quando o poder é confundido com birra institucionalizada. O município não avançou; entrou em marcha-atrás com os quatro piscas ligados e o rádio aos berros.

E o mais impressionante? Ainda nem passou um ano completo. Faltam mais três. O que significa que os habitantes de São Vicente não vivem num concelho, vivem numa série de sobrevivência política com episódios semanais e orçamento de tragédia grega.

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