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A sintonizar estações...

Parece que já tivemos um Governo de extrema-direita e só agora ficamos a saber.

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O profeta da treta

H

á fenómenos na política que fariam inveja às mais complexas previsões meteorológicas da nossa Madeira. Mas estas são para acertar. Olhando para a atual coreografia partidária nacional, assiste-se a uma espécie de fado invertido. O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho parece ter descoberto uma súbita e calorosa afinidade pelo palanque de André Ventura, enquanto trata de minar o atual Presidente do seu próprio partido, Luís Montenegro, com uma bateria de acusações sonsas. Até sai mais cedo das salas... Qualquer dia, um amigo da onça começa a falar, AJJ. A proximidade é tanta, de Passos a Ventura, e o tom tão afinado, que quem ouve os discursos de hoje fica com uma sensação estranha de déjà vu, dos tempos em que Ventura estava no PSD. Olhamos para trás, para os anos de ferro da troika, e apetece mandar uma boca amarga, parece que já tivemos um Governo de extrema-direita e só agora ficamos a saber.

Afinal, a insensibilidade social que marcou aquele período de "ir além da troika", em que os cortes eram virtude e o empobrecimento era uma inevitabilidade, parece querer regressar de roupagem renovada. Onde antes havia folhas de cálculo frias e tecnocratas de fato cinzento, há agora uma aliança informal de conveniência com o populismo.

Pelo meio desta dança de cadeiras e de afetos trocados, surge outra dinâmica digna de registo. Basta o Partido Socialista dar sinais de recuperação ou crescimento nas sondagens para que, como por artes mágicas, surja uma torrente coordenada de novos casos, suspeitas requentadas e fugas de informação cirúrgicas. Será tudo fruto do mero acaso jornalístico e judicial, ou haverá uma mão invisível a guiar o espetáculo? Eu diria que parece coisa de anão manhoso.

Nos bastidores da política de café, há quem aponte o dedo à criatividade obsessiva do anão da propaganda suja, aquela figura figurada que habita nos gabinetes de comunicação de guerrilha e do lobbying, especializada em lançar lama para tapar qualquer debate sério sobre o país. O objetivo é claro, descredibilizar a alternativa à força, baralhar as agulhas do relógio político e garantir que o debate público não se faça sobre habitação, saúde ou salários, mas sim sobre o folhetim do dia. Ele ganha dinheiro com isto, só uma frente o sustenta.

Quem promove a insensibilidade social neste momento de incerteza e tenta descredibilizar a opção que tendencialmente as pessoas preferem nas crises?

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