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A droga entra na Madeira por onde e por quem?

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  • https://www.dnoticias.pt/2026/6/24/496621-pj-desmantela-rota-de-trafico-de-droga-que-passava-ao-largo-da-madeira/#

S

e há "Operação Azul 2.0" da Polícia Judiciária houve a 1.0 e haverá 3.0. Se a Europol está no baralho, já somos famosos, mesmo que não venha nas notícias. Meus amigos, se as portas estão nas mãos dos amigos e proprietários, haverá notícias e jornalismo de investigação? Não, isso é só para o NOW e outro no Continente. Só faltava virem cá fazer desse jornalismo para passarmos mais vergonha com o jornalismo que temos.

As autoridades desmantelaram uma rota internacional de tráfico de droga com ligação direta à Madeira. Para um fornecimento directo é que vale a pena! O balanço impressiona pela quantidade e sofisticação logístico-marítima e quiçá a falta de receio! Mais de 465 kg de cocaína e 42 kg de haxixe intercetados em pleno Atlântico, vindos da América Latina. Será que o nosso pequenino mercado se abriu com a imigração? Estou a perguntar, e isso não ofende.

Este caso serve uma reflexão urgente sobre as portas de entrada na nossa Região e as gritantes assimetrias de fiscalização. Temos o funil do Aeroporto e as escancaradas portas do mar. O mar é vigiado com poucos meios. É o calcanhar de Aquiles. Quando se apreendem quase meia tonelada de cocaína e dezenas de quilos de haxixe numa rota atlântica ligada à Madeira, impõe-se uma pergunta, por onde é que as redes criminosas sentem que o terreno está livre? Porque se privatiza Marinas? O negócio é mesmo de acostagem de embarcações? Mais uma vez perguntar não ofende. A resposta salta à vista de qualquer cidadão atento à geografia da nossa fiscalização.

No Aeroporto da Madeira, o controlo é uma fortaleza de regras, raio-x, cães pisteiros e revistas minuciosas, até ver se não houver um colaborante, há sempre. Mas, é um autêntico funil onde é extremamente difícil passar com o que quer que seja fora da lei. O passageiro comum e o pequeno traficante sabem bem o risco que correm sob o escrutínio cerrado das autoridades aéreas. Em contrapartida, o cenário muda de figura quando olhamos para a imensidão da nossa costa e, em particular, para a proliferação de portos e marinas privatizadas.

Nestas infraestruturas geridas pelo setor privado, onde o luxo e a discrição muitas vezes ditam o protocolo, a fiscalização permanente e musculada das autoridades do Estado parece diluir-se. Iates de grande porte, embarcações de recreio vindas de paragens internacionais e embarcações rápidas encontram demasiadas vezes um porto seguro, longe dos olhares apertados que encontramos na pista de aviação. Quem não vi a vaidade das autoridades na aportagem de mega-iates. Todos nos sabemos que o tráfico de droga se faz de pirogas, não é verdade?

A pretexto do desenvolvimento turístico e do acolhimento à náutica de recreio de alta gama, fomos entregando a gestão de pontos estratégicos do nosso mar a interesses privados. O resultado? Uma gritante desigualdade de critérios. Enquanto o cidadão comum é revistado até ao detalhe para apanhar um voo regular, o mar aberto e as marinas privadas transformam-se num autêntico queijo suíço, propício a operações logísticas transatlânticas como a que foi agora intercetada.

A eficácia desta operação da PJ e da Europol é de louvar, mas serve também como um aviso sério, o crime organizado escolhe sempre o caminho de menor resistência. E hoje, na Madeira, esse caminho está claramente desenhado na água e com operacionais em terra calejados. Se fechamos o funil no ar, não podemos continuar a deixar as portas escancaradas no mar sob o manto da "privacidade" das nossas marinas.

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