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Pronto, ficamos com os vencimentos do FMI.

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 Quando a sobrevivência é chamada de "generosidade"

C

onhecemos muito bem o FMI, são aqueles que têm a teoria toda e quando um país se mete em encrencas decidem dar cabo mais depressa. Passados uns tempos, percebemos que são técnicos e não políticos, só querem saber do dinheiro e não da viabilidade do país e das suas gentes. Depois vertem lágrimas de crocodilo que poderia ter sido diferente, mas quem os enfrenta na arrogância de estarem por cima e sempre bem financiados? O FMI não vive de gente, vive de dinheiro.

É preciso uma dose monumental de desfaçatez, ou um desconexão total da realidade terrena, como é costume, para olhar para as pensões de miséria e de viúvas em Portugal e rotulá-las como "demasiado generosas". Mas foi exatamente isso que o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez ao exortar o país a rever estes apoios. 

O FMI, conhecido pelos seus relatórios cirúrgicos e pelas suas receitas de austeridade que invariavelmente esmagam os mesmos de sempre, volta a apontar baterias aos mais vulneráveis. Numa análise macroeconómica abstrata, onde pessoas de carne e osso se transformam em meras linhas de despesa pública, a instituição sugere cortes e "revisões" naquilo que garante, mal e porcamente, um prato de sopa na mesa de milhares de idosos.

Assistimos à hipocrisia dos gabinetes de luxo, não me estranha nos dias que vivemos de CEO's verdadeiros terroristas do emprego, do vencimento, da humanidade, não tenham dúvidas que a par de Governo irresponsáveis de partidos tradicionais fazem muitos votar na extrema-direita por vingança. Não sou populista nem voto na extrema-direita, mas sei bem como as pessoas cegam e vingam-se.

Enquanto os técnicos do Fundo desenham estas recomendações a partir de gabinetes climatizados em Washington, desconhecendo realidades mas amarrados ao dinheiro, auferindo salários astronómicos, isenções fiscais e pacotes de benefícios que a esmagadora maioria dos mortais nem consegue conceber, o seu foco analítico vira-se para as pensões mais baixas que ainda são generosas. Aquelas que frequentemente nem chegam para cobrir o custo dos medicamentos e dos bens alimentares essenciais. 

As pensões de viuvez são um amortecedor social crítico para quem perdeu o parceiro de uma vida e se depara com a duplicação das despesas fixas num agregado agora unitário. Chamar "generosidade" a uma reforma que obriga um idoso a escolher entre comer ou comprar os remédios para o coração não é apenas um erro de cálculo económico, é uma profunda obscenidade moral. Digam-me, os governos e estas instituições parasitas trabalham para o dinheiro ou para o ser humano? Se tiverem que decidir entre dinheiro e pessoas matam os seres humanos?

A estratégia é velha, mas continua eficaz, em vez de se auditar a sério a despesa supérflua, a corrupção, os ricos isentos, as parcerias público-privadas ruinosas ou os resgates camuflados ao setor financeiro, vai-se buscar o dinheiro ao bolso de quem não tem voz, de quem não faz greve e de quem já não tem forças para protestar nas ruas.

Os reformados e os viúvos tornam-se, assim, o alvo perfeito para a engenharia orçamental do FMI. Se o FMI quer mesmo falar de privilégios e de reformas injustificadas, deveria começar por olhar para o espelho da sua própria burocracia e para os rendimentos pornográficos que os seus quadros auferem para produzir relatórios de desumanidade calendarizada. Deixem em paz quem já deu tudo ao país e hoje apenas tenta sobreviver com dignidade.

A cegueira do dinheiro matou a humanidade, só resta saber quando ela enfurece e começa a eliminar, quando já não tiver nada a perder.

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