A lotaria nacional da Saúde


Q uero agradecer à Senhora Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, figura central do XXIV e do XXV Governos, por nos oferecer uma nova experiência nacional: a Lotaria da Saúde. Já não basta jogar no Euromilhões. Agora, o cidadão comum acorda e pergunta: “Que hospital estará aberto hoje?” e “Será que chego a tempo?”

Diz-se que a justiça procura equilíbrio. Na saúde portuguesa, procura-se sinal de rede. A teoria é simples: se o hospital está fechado, a ambulância anda; se a ambulância anda, o parto acontece; se acontece, acontece na estrada. É uma espécie de filosofia prática aplicada ao asfalto. Tudo muito moderno.

A Ministra garante reformas. E cumpre. Reformou tanto que desmontou. O SNS, antes um sistema, parece agora um puzzle sem tampa, vendido peça a peça a quem pagar melhor. Chamam-lhe eficiência. Outros chamam-lhe feira de usados. No meio disto, o doente aprende a virtude da paciência: espera, espera muito, e aceita com serenidade o que não controla.

Convém lembrar um detalhe histórico, esse pequeno incómodo. Em 1979, quando nasceu o SNS, houve quem dissesse “não”. O PPD/PSD votou contra. Achava o sistema muito público, muito universal, muito para todos. Preferia outra harmonia, talvez mais privada e seletiva. A lei passou na mesma, com apoio de quem acreditava que a saúde não devia perguntar pelo saldo bancário.

Hoje, essa velha discussão volta, mas com humor negro. O SNS universal continua a existir, dizem, embora às vezes só no papel. Na prática, funciona por turnos, por sorte e por fé. Uns entram pela porta, outros pela ambulância, outros pela esperança. É uma democracia clínica: todos iguais, mas alguns esperam mais.

O Primeiro-Ministro elogia a Ministra. É coerente. Quando era oposição, pedia demissões por bem menos. Agora pratica outra escola filosófica: a da tranquilidade absoluta. Nada perturba. Nada falha. Tudo corre bem, sobretudo nos comunicados.

Entre 2015 e 2024, houve outros ministros, outras crises e muitos pedidos de cabeças. Hoje há silêncio, que é uma forma elevada de reflexão. Talvez seja isto a nova justiça: não corrigir, mas contemplar.

No fim, fica a pergunta simples, quase infantil: quem assume a responsabilidade? A resposta é igualmente simples: ninguém. E assim seguimos, em equilíbrio instável, numa bela harmonia nacional, onde a saúde é um jogo de azar e a sorte é o principal plano estratégico.

Obrigado, Senhora Ministra. Nunca foi tão difícil adoecer em paz.