Adeus Funchal, um território em exaustão.


As gentes e o meio estão irritados e saturados.

A discussão sobre trilhos e levadas tornou-se o álibi perfeito para evitar o debate que realmente importa. Fala-se de cancelas, bilhetes e limites diários como se o problema fosse a falta de controlo em meia dúzia de percursos naturais. Não é. O problema chama-se excesso de turismo e resulta de uma opção política consciente: crescer sem limites num território que não os suporta. Sem estudos, sem plenos e já agora, sem futuro. O erro não é emendável.

A Madeira está em sobrecarga. Ambiental, urbana e social. E já não há como disfarçar. Regular trilhos pode mitigar danos localizados, mas não resolve a pressão estrutural criada por milhares de camas turísticas, voos constantes e uma estratégia que trata o território como produto e não como lugar.

Enquanto se aponta o dedo às levadas, o Funchal vai sendo transformado num resort. Edifícios centrais, com valor histórico e função urbana, são sistematicamente retirados à cidade para dar lugar a hotéis. A ex-sede do Banif, arrendada por 30 mil euros por mês durante 30 anos para se converter numa unidade hoteleira, é mais um marco desta captura do espaço urbano. Não é exceção. É padrão.

Cada prédio transformado em hotel é menos habitação, menos serviços, menos vida. É mais pressão imobiliária, mais expulsão de residentes, mais trabalhadores forçados a viver longe do centro que servem. Uma cidade sem moradores não é uma cidade: é um cenário montado para consumo rápido. Estão a matar a alma, tradições e cheiros do Funchal. Os antigo sentem saudades, mas os emigrantes que regressam e os mais novos também. É todo igual a tantos outros lugares focados em turistas.

Este modelo não cria desenvolvimento sustentável. Cria dependência. Dependência de capital externo, de rendas elevadas, de mão-de-obra mal paga e de uma economia monotemática. O turismo, neste formato, não redistribui riqueza, concentra-a. E consome os recursos naturais e sociais que o sustentam.

O absurdo atinge o auge quando se propõe “mais turismo” para resolver os problemas causados pelo próprio turismo. Há falta de habitação? Atrai-se mais investimento turístico. Há degradação ambiental? Promove-se mais crescimento para gerar receita. É um ciclo vicioso que empurra o território para a exaustão. Eu estou para ver para onde vão alargar a via rápida, vão falar de mais uma como falam da extensão da Pontinha que os antigo não arriscaram e preferiam mais um "braço" por trás?

A pergunta deixou de ser técnica e passou a ser política: quando é que se vai parar? Quando é que se assume que há limites? Quando é que se decide que a cidade não está à venda? Eu vejo gente das imobiliárias e provocam-me engulhos. Terroristas sem produto.

A Madeira não precisa de mais hotéis. Precisa de habitação acessível, de bairros vivos, de serviços para quem cá vive e de um modelo económico que respeite o território. Precisa de coragem para dizer não a um caminho que é socialmente injusto, ambientalmente destrutivo e economicamente frágil. Tanta riqueza criada e atrasam-se por meses no reembolso de consultas e exames? O hospital está em penúria e querem mais campos de golfe?

Continuar a transformar a cidade num resort não é progresso. É abdicação. Abdicação do direito à cidade, da sustentabilidade do território e do futuro coletivo. E quanto mais tarde se romper com este modelo, mais alto será o custo, pago por quem cá vive, não por quem vem de passagem.

Qualquer dia a Madeira não tem capital, tem um resort de trânsito atolado. Parem de meter mais carros.

O madeirense estava quieto!