T em ardido pouco não tem? Tem ardido Laurissilva, não tem? As invasoras têm mais força do que nunca, certo?! Estudos de impacto ambiental, estatísticas, estudos na Madeira têm humor e deixam Albuquerque tranquilo no areal. O IFRAM3 apresenta-se como um documento tecnicamente competente, metodologicamente rigoroso e cuidadosamente alinhado com o discurso contemporâneo da sustentabilidade e da resiliência. Mas... essa competência técnica acaba por expor, de forma ainda mais evidente, as fragilidades políticas e estratégicas que o relatório opta por contornar.
Três inventários florestais em menos de vinte anos deveriam ser suficientes para mudar uma política. O IFRAM1, publicado em 2008, mostrou pela primeira vez a dimensão e a composição real da floresta madeirense. O IFRAM2, em 2015, confirmou tendências preocupantes e identificou dinâmicas de alteração do uso do solo. O IFRAM3, concluído em 2025, traz mais detalhe, mais tecnologia e mais indicadores. O problema é simples, continua a dizer, com mais precisão, aquilo que já sabíamos, e que continuamos a não resolver. Não dinheiro para ambiente e floresta? Parece evidente. E agora com o excesso de carga do turismo massivo como será o IFRAM4.
Do ponto de vista ambiental, o IFRAM3 é claro, a floresta da Madeira é valiosa, mas vulnerável. A Laurissilva mantém-se como núcleo ecológico fundamental, essencial para a biodiversidade, a água e a estabilidade dos solos.
No entanto, permanece cercada por um mosaico florestal frágil, dominado por espécies exóticas, manchas descontínuas e áreas com baixa resiliência a incêndios e fenómenos extremos. Não foi um acaso termos já um episódio de Laurissilva a arder. Esta realidade já estava identificada no IFRAM1 e reforçada no IFRAM2. O IFRAM3 apenas a confirma.
É verdade que o inventário atual é mais sofisticado. Introduz novos indicadores, avalia a condição da floresta, observa sinais de stress como desfoliação e perda de vigor, e analisa a estrutura vertical da vegetação. Mas esta melhoria técnica torna ainda mais evidente a distância entre conhecimento e ação. Nem era preciso um estudo. Sabemos hoje mais sobre a degradação florestal do que sabíamos há dez ou quinze anos e, ainda assim, os problemas estruturais persistem. O leigo sabe que é preciso se mexer, mas um governo com estudos parece que só serve para a notícia.
A fragmentação florestal continua a ser tratada como um dado quase inevitável, quando é resultado direto de opções de ordenamento e abandono prolongado. A presença dominante de espécies exóticas é descrita, mas raramente encarada como prioridade política. A vulnerabilidade ao fogo surge nos dados, mas não se traduz numa mudança clara do modelo florestal. Inventaria-se o risco, mas normaliza-se a sua existência. Caramba, mantos amarelos na serra precisam de estudo?! E ninguém se mexe?!
Há também um problema de linguagem que não é inocente. O IFRAM3 insiste em apresentar-se como documento técnico, evitando qualquer leitura política das suas conclusões. Mas quando um inventário sucessivo revela os mesmos pontos fracos, a neutralidade deixa de ser virtude. Passa a ser recusa em assumir responsabilidades. A floresta não se degrada por falta de dados degrada-se por falta de decisões.
Comparando os três inventários, a sensação que fica é desconfortável, a Madeira tornou-se muito competente a medir a sua floresta, mas continua hesitante em transformá-la. Fotografias, turismo e medalhas resolvem? O IFRAM3 não aponta para um colapso iminente, mas mostra claramente que o sistema florestal atual não está preparado para um futuro de alterações climáticas, eventos extremos e pressão contínua sobre o território e estamos a tê-lo com o excesso de turismo que até afasta os madeirenses com processos de gestão...
O IFRAM3 é um documento necessário, mas também é um aviso repetido. A floresta madeirense já foi suficientemente diagnosticada. Continuar a inventariar sem intervir de forma estrutural é adiar um problema que, num território insular, não admite adiamentos longos. A pergunta já não é o que sabemos sobre a floresta. É por que razão, sabendo tanto, continuamos a fazer tão pouco! São as prioridades...
