| O comércio de sondagens |
A disparidade das sondagens parecem à medida de cada candidato
E ntão são métodos científicos, estudados para se aproximar muito e dão tanta disparidade? A situação toca num ponto nevrálgico da confiança democrática, a discrepância abismal entre estudos que deveriam, teoricamente, refletir a mesma realidade estatística. Esta variação extrema, muitas vezes favorável a quem encomenda o estudo, sugere que o "rigor científico" pode estar a ser condicionado por escolhas metodológicas enviesadas, ou seja, agradar as mais diversas candidaturas, e então, quase uma por dia dá um resultado a gosto do freguês. Quando uma sondagem coloca um candidato na liderança isolada e outra, no mesmo período, o apresenta em terceiro lugar, o problema raramente é o "acaso" da amostra. Pelo contrário, pode residir na formulação das perguntas, na ponderação arbitrária de dados demográficos ou na exclusão seletiva de indecisos, transformando o que deveria ser um termómetro da opinião pública num instrumento de marketing político e criação de narrativas. Estamos na campanha de uma alegria por dia em cada candidato.
Além disso, a dimensão reduzida das amostras e o baixo investimento em recolha de dados presencial (recorrendo excessivamente a métodos digitais ou telefónicos de baixo custo) amplificam a margem de erro real (sempre ocultado apesar de constar um número), para além daquela que é anunciada. Quando o mercado de sondagens se torna dependente financeiramente das próprias candidaturas ou de grupos de media com alinhamentos editoriais vincados, o conflito de interesses é evidente. Em vez de preverem o comportamento do eleitor, estas sondagens parecem desenhadas para o influenciar, utilizando a aura de autoridade da estatística para validar a viabilidade de um candidato "a soldo", o que acaba por degradar a literacia política e a fé nas instituições.
Duas sondagens sobre a mesma eleição podem apresentar resultados opostos, parece as estatísticas do governo sob aação do próprio governo, como acontece na Madeira. A diferença reside, quase sempre, na forma como o grupo de pessoas é escolhido e como as respostas são tratadas.
1. Amostragem Probabilística vs. Por Quotas
A maioria das sondagens modernas, por uma questão de custo, utiliza o método por quotas. Em vez de escolher pessoas ao acaso em todo o país (o que é caro e difícil), os investigadores procuram preencher "caixas" (ex: x% de mulheres, y% de jovens, z% de reformados).
O risco: Se os critérios de quotas forem mal definidos ou ignorarem a geografia (ex: entrevistar apenas pessoas em grandes centros urbanos), a sondagem deixa de representar o país real. É aqui que empresas "a soldo" podem ajustar as quotas para encontrar o público-alvo que favorece o seu cliente.
2. O Peso da Ponderação e o Tratamento de Dados
Raramente uma amostra bruta é perfeita. Se uma sondagem ouve menos jovens do que o previsto pelo censo, a empresa aplica um fator de ponderação (multiplica as respostas dos jovens por um valor para "equilibrar" a conta).
Onde reside a disparidade? No "tempero" científico. Se um estatístico decidir que os "indecisos" vão votar da mesma forma que votaram nas últimas eleições, o resultado será um. Se decidir que os indecisos vão seguir a tendência de crescimento de um candidato radical, o resultado será drasticamente diferente.