Cabos Submarinos/Madeira, uma vulnerabilidade estratégica e ameaça híbrida no Atlântico


Europa - Madeira - Mercosul - Rússia

O s cabos submarinos de telecomunicações que amarram na RAM constituem infraestruturas críticas de importância estratégica para Portugal, para a União Europeia e para o espaço euro-atlântico. Estes sistemas asseguram a conectividade digital entre a Europa, a África e a América do Sul, sustentando fluxos essenciais de dados económicos, financeiros, científicos, governamentais e militares. A sua interrupção teria impactos imediatos na estabilidade económica, na segurança coletiva e na credibilidade das parcerias internacionais da União Europeia, incluindo o acordo UE–Mercosul. Num mundo de imperialistas com liberdade para tudo, somos um alvo que parece só os russos terem mostrado interesse por agora.

A experiência recente no Mar Báltico confirma que a Federação Russa tem integrado a dimensão submarina nas suas estratégias de guerra híbrida, recorrendo à sabotagem, intimidação e mapeamento de infraestruturas críticas como instrumento de pressão política e estratégica. A Madeira, sabe-se, foi mapeada.

Neste contexto, não existem razões para excluir o Atlântico desta lógica de atuação da Guerra Hibrida, mesmo que os madeirenses estejam noutro mundo. Pelo contrário, os cabos que passam pela Madeira, em particular os que ligam diretamente a Europa à América do Sul, representam um factor de autonomia estratégica europeia, ao reduzir a dependência de rotas tradicionais controladas por terceiros e ao reforçar a ligação digital com países do Mercosul e do espaço lusófono. Essa autonomia constitui, em si mesma, um potencial alvo de contestação por actores estatais que procuram fragilizar a coesão euro-atlântica e a projeção global da União Europeia. Não só os russos estarão atentos, o "invejoso laranja" acha a América Latina o seu quintal. 

A ameaça não deve ser entendida apenas como a possibilidade de corte físico dos cabos, mas como um espectro mais amplo que inclui vigilância submarina, recolha de informação sensível, demonstrações de capacidade, coerção estratégica e criação de insegurança permanente. A simples perceção de vulnerabilidade é suficiente para gerar instabilidade política, custos acrescidos de proteção e perda de confiança nos corredores digitais alternativos ao eixo do Atlântico Norte. A pergunta que se põe, que segurança garante Portugal a esses cabos submarinos que amarram na Madeira? Que Marinha com meio temos?

A Madeira emerge como um ponto sensível da segurança euro-atlântica, exigindo uma abordagem integrada entre:

  • União Europeia, no âmbito da proteção de infraestruturas críticas e da autonomia estratégica digital;
  • NATO, no reforço da vigilância marítima e submarina, dissuasão e partilha de informação;
  • CPLP, enquanto espaço natural de cooperação transatlântica, particularmente com o Brasil, ator central na ligação Europa–América do Sul.

A proteção dos cabos submarinos da Madeira deve, assim, ser elevada a prioridade estratégica, integrando-se nos mecanismos de defesa coletiva, segurança marítima e cooperação internacional. Falhar nesta proteção significa expor a União Europeia, os seus parceiros do Mercosul e o espaço lusófono a riscos inaceitáveis num contexto internacional marcado pela escalada de ameaças híbridas e pela instrumentalização deliberada das infraestruturas civis.

Garantir a segurança dos cabos submarinos da Madeira é garantir a resiliência digital, a credibilidade estratégica da UE, a coesão da NATO no Atlântico e a profundidade geopolítica das relações com a CPLP e o Mercosul.

Não vejo no Governo Regional nem no Central preocupação com isto!