N a política madeirense há certezas absolutas: o vento sopra de norte, o mar molha e, quando se fala do Chega Madeira, ninguém sabe muito bem para que lado aponta a bengala. A dúvida é simples, quase ingénua: o Chega na Madeira apoia Marques Mendes ou André Ventura?
À primeira vista, a resposta devia ser óbvia. Mas na Madeira nada é linear, é tudo feito de curvas, corredores e cochichos.
Comecemos pelo que é público e notório. No Caniçal existe um negócio ligado aos fotovoltaicos que pertence a Marques Mendes. Isto não é boato, é matéria conhecida e documentada. Nesse mesmo negócio terá estado envolvida uma figura conhecida nos meios políticos e empresariais regionais: o chamado Petite Salazar, petite, note-se bem, pequeno em francês, para que não haja dúvidas linguísticas nem históricas.
Até aqui, estamos no domínio do que é falado à luz do dia.
O problema começa quando entramos no território mais nebuloso, o da praça pública, onde não se sabe bem onde acaba a verdade e começa a caricatura. Corre nos corredores, nas esquinas e nos cafés que o líder do Chega Madeira, conhecido por alguns como “o Bengala”, seria… a bengala do Petite Salazar.
Repetimos, diz-se. Não afirmamos. Limitamo-nos a relatar o folclore político local, esse património imaterial que nunca aparece nos boletins oficiais.
Ora, se:
- o Bengala é a bengala do Petite Salazar,
- e se o Petite Salazar esteve envolvido no negócio de Marques Mendes,
- e se, por outro lado, Marques Mendes também tem a sua própria “bengala” política,
então entramos num negócio de bengalas digno de estudo antropológico.
E a pergunta impõe-se, legítima e inevitável:
- afinal, quem apoia o Chega na Madeira?
- Marques Mendes ou André Ventura?
Porque não se pode estar, ao mesmo tempo, apoiado numa bengala virada para Lisboa e noutra apontada para São Bento. Ou talvez possa, desde que o equilíbrio não falhe.
O que fica é a sensação de que, no Chega Madeira, as bengalas multiplicam-se, mas a direção continua pouco clara. E quando um partido que se diz anti-sistema começa a parecer um andador político, convém parar e perguntar: quem segura quem, e para onde está a caminhar?
Na Madeira, como se sabe, quem não esclarece… tropeça.
E quando há bengalas a mais, o risco não é cair, é ficar parado.
