Pornografia, o único consenso nacional.


N uma semana cheia de gritos, bandeiras, comícios e frases vazias, surgiu uma verdade simples, clara e quase científica, os filmes pornográficos são, talvez, o produto cultural mais pacífico do nosso tempo. Não há tiros, não há guerras, não há discursos de ódio, não há inimigos internos nem externos. Há cooperação. Há coordenação. Há esforço conjunto. E, acima de tudo, toda a gente percebe a história, mesmo começando no meio.

Consideremos isto com calma. O debate político moderno promete justiça, ordem e felicidade coletiva, mas entrega barulho, suspeita e confusão. Já o cinema adulto promete pouco e entrega tudo o que promete. Será isto injusto? Ou será apenas lógico?

Observemos os factos. Nestes filmes não existe racismo estrutural, nem regionalismo choroso, nem liberalismo de bolso, nem nacionalismos musculados. Ninguém grita “o povo primeiro” enquanto mete a mão no bolso do povo. Não há salvadores da pátria, nem líderes iluminados, nem gestores morais com cara séria e práticas obscuras. Há regras simples, papéis claros e resultados visíveis. Causa e efeito. Ação e reação. Uma ordem quase matemática.

Perguntemo-nos, o que é justiça? Talvez seja isto, cada um entra de livre vontade, ninguém finge virtude, e o final é conhecido por todos. Não há promessas futuras, apenas o presente em movimento. Não há propaganda, apenas prática. Não há ideologia, apenas consenso tácito.

Enquanto certos partidos discutem valores “naturais” com linguagem artificial, estes filmes usam uma língua universal, direta, sem tradução e sem rodapé. Comece às três da manhã ou às três da tarde, a narrativa mantém-se firme. Uma estabilidade que muitos governos invejariam.

Há quem diga que isto é decadência moral. Outros chamam-lhe degeneração. Mas talvez seja apenas honestidade. Num mundo político cheio de farsantes, impostores e profissionais da indignação seletiva, o cinema adulto tem a coragem rara de não fingir que é outra coisa.

No meio do caos público, esta indústria privada ensina uma lição estranha e desconfortável, quando se aceita a realidade, quando se respeita o limite e quando se coopera sem hipocrisia, o conflito diminui. A paz não vem de discursos inflamados, mas de acordos claros.

Talvez a justiça não esteja nos palcos, mas nos bastidores. Talvez a harmonia social não precisa de megafone, apenas de menos mentira. E talvez, no fim, o maior escândalo não seja o que se vê no ecrã, mas o que se finge não ver na política.