Porque um é descarado a usar a política para a fazer lóbis e negócios e outro não?
D ei comigo nesta observação interessante, expõe uma contradição apenas aparente? É por percepção e não conhecimento? É precisamente aí que a política se joga: “sistema” não é uma categoria fixa, é uma perceção móvel.
Marques Mendes e António José Seguro são ambos figuras claramente integradas no regime democrático português, com carreiras longas, previsíveis, institucionais. Mas o eleitorado não reage ao estatuto objetivo, reage à imagem simbólica. Um é um "artista" com a promoção feita na TV como o Trump, o outro é calmo e sereno, nada que se lhe aponte, mas também apoiado por um dos partidos do sistema.
O “sistema” que penaliza não é o facto de alguém ter cargos passados; é a sensação de desgaste, repetição (do mesmo jogo), falta de risco, alinhamento com um presente que muitos sentem como bloqueado.
Marques Mendes representa o sistema em funcionamento, o comentador omnipresente (mesma carrera de Marcelo, mesma estratégia), intérprete permanente do poder (apanhado em muitos comentários que deslizam), alguém que explica, justifica, enquadra. Faz a cabeça das pessoas para que o seu lado partidário corra bem e seja votado para que ele herde através do apoio do partido. Mesmo quando critica, fá-lo a partir de dentro, com o tom de quem conhece os bastidores e aceita as regras do jogo. Isso gera duas perceções negativas não encarna mudança, parece mais “árbitro” do que “jogador”. Acaso percebem porque o populismo está a tomar conta do país? E querem mais do mesmo? Isto não é um egoísmo dos partidos tradicionais que não mudam e vão abatendo caras?
O eleitor cansado não quer explicações, quer rutura emocional, mesmo que moderada.
Seguro representa o sistema em pausa. António José Seguro tem uma vantagem paradoxal: saiu. Não saiu em rutura heroica, mas saiu antes de se tornar tóxico. Ficou associado a "que poderia ter sido", alguém travado por dentro que merece um reconhecimento, uma vítima discreta do aparelho.
Isto permite-lhe ocupar um espaço curioso, é do sistema, mas não é o sistema atual, não está colado ao presente que desagrada. Na política, ausência prolongada é uma forma de lavagem simbólica, que muitos querem encurtar porque não vivem sem política.
Mendes e Seguro, a diferença entre “responsável” e “responsabilizado”. Marques Mendes é percebido como corresponsável pelo estado das coisas, mesmo sem o ser diretamente. É o sistema que manobra nos bastidores, que jeitoso poderá ser como Presidente?
Seguro aparece como alguém que não chegou a mandar, logo não pode ser culpado. Morre pela raiz, pela dúvida, é tipo um Sá Carneiro vivo que não passou pela crítica e cansaço do eleitor. Isto liga-se a um fenómeno clássico, quem explica demais o sistema acaba se confundido com ele.
As eleições também têm uma psicologia, eleitoral, é a familiaridade vs. fadiga. Marques Mendes está sempre presente e gera fadiga, mas ele quis assim porque falar para compor a conjuntura é algo típico de manobrador ardiloso do sistema. Seguro reaparece, gera curiosidade e projeção. Alguns sentem-se em dívida porque foi destratado.
O eleitor não pergunta “quem percebe mais disto?” Pergunta “quem ainda não me desiludiu?” O que as sondagens mostram não é uma escolha racional entre dois perfis, mas um desejo difuso, menos ruído, menos bastidores, menos comentário (ajeitar a conjuntura), mais “possibilidade”. Talvez Seguro seja o cansaço de Marcelo, da hiperatividade, o exagero, o desejo de moderação. Seguro sobe não por ser melhor, mas por ser menos saturado.
Marques Mendes desce não por ser pior, mas por ser demasiado conhecido no papel errado.
Não é “sistema vs. antissistema”. É o sistema cansado vs. sistema reciclado pela distância.
E isto diz menos sobre eles e mais sobre um país que já não rejeita o sistema, rejeita a sensação de estar preso ao mesmo presente.
Parece que passa Seguro e Ventura e ganha Seguro, porque Ventura tem muito de Marques Mendes, não se cala a ajeitar a conjuntura. Estamos fartos de ardilosos.
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