H á quem diga, e diga-se sempre com aquele tom neutro de quem não afirma, apenas observa — que na política regional existe um móvel recorrente: a alcofa colocada no meio do quarto. Não é metáfora nova, mas continua eficaz.
Não se trata de vida íntima, convém esclarecer desde já. Trata-se de arranjos, de entendimentos, de conversas que não passam pela sala, porque a sala tem janelas e o quarto tem cortinas.
O chamado Miguel I, figura arquetípica do poder insular, sempre soube isso. A sua alcofa — falemos apenas em sentido figurado — era mantida com esmero: tudo limpo, arejado, cuidadosamente preparado antes de cada encontro político-social. Nada ficava ao acaso. O cheiro era neutro, a aparência irrepreensível. Quem entrava saía convencido de que tudo tinha sido feito “com elevação institucional”.
Já o Miguel II, versão mais recente e mais impaciente do mesmo molde, parece não ter tido a mesma preocupação estética. A alcofa, dizem as más línguas — essas entidades anónimas que ninguém controla mas todos citam — permanece no centro do quarto, mas sem renovação de lençóis. Usa-se o que lá está. Repete-se o cenário. Trocam-se os discursos, não os panos.
E é aqui que começa o murmúrio social, note-se: não por moral, não por intimidade, mas por higiene simbólica. Quando os mesmos tecidos circulam de reunião em reunião, de acordo em acordo, sem limpeza entre usos, há sempre o risco de se propagarem bichinhos políticos — desses que não se veem a olho nu, mas causam incómodo prolongado.
No caso do Miguel II, o comentário ganha uma variante ainda mais irónica: pode haver contágio de alcofas. Não por qualquer drama privado, mas pela simples lógica do descuido — lençóis não lavados geram circulação do que não interessa circular. E, em política, o que se “pega” raramente é uma ideia: costuma ser um hábito, um vício, um método, uma esperteza.
Alguns chamam-lhes “comichões”. Outros preferem termos mais técnicos: oportunismo, compadrio cruzado, promiscuidade ideológica. Nada que se prove, claro. Mas há sinais: inquietação pública, desconforto privado, uma certa vontade coletiva de coçar onde não se devia.
O detalhe mais curioso é que, dizem, por essa alcofa simbólica passam pessoas de todos os estados civis políticos: fiéis, comprometidas, oficialmente alinhadas com outros discursos. Nada de ilegal nisso — a política vive de encontros. O problema surge quando os encontros deixam marcas e essas marcas começam a aparecer fora do quarto.
Reforce-se: não falamos de camas, falamos de métodos.
Não falamos de lençóis reais, falamos de princípios reutilizados.
E se há receio de contágio, não é biológico — é ético.
Talvez esteja na hora de alguns Miguéis perceberem que o problema não é ter a alcofa no meio do quarto. O problema é não a limpar entre utilizações. Porque quando a política começa a provocar comichão generalizada, o incómodo já não é privado: torna-se público.
