M iguel Albuquerque devia tirar uma selfie hoje, dia 7 de janeiro, num posto dos CTT. Não é vaidade, é serviço público. De preferência numa fila longa, com senha na mão, rodeado de madeirenses a tentar decifrar a nova coreografia burocrática do subsídio de mobilidade que entra hoje em vigor. Às oito da manhã, quando a fila já dobra a esquina e o sistema ainda “está a arrancar”. Na mão, uma senha. No rosto, aquele sorriso institucional de quem nunca teve de provar três vezes que vive numa ilha para poder sair dela.
Um governante sorridente, enquadrado por impressoras avariadas, formulários redundantes e funcionários exaustos. Legenda: “Proximidade com o cidadão”, opacidade administrativa. Um presidente enquadrado por balcões lentos, formulários repetidos, comprovativos absurdos e cidadãos cansados. Uma obra de arte administrativa.
O agravamento da burocracia não é um detalhe técnico, é uma decisão política. O cidadão paga, viaja, adianta dinheiro e depois faz turismo administrativo para provar que existe. É o subsídio de mobilidade em versão “escape room”.
Por isso, Sr. Presidente, a selfie faz sentido. Mostra empatia performativa, essa especialidade da casa. Mostra que governar à distância é fácil, mas enfrentar um balcão é para poucos. É o mínimo. Um gesto de proximidade encenada num cenário real. Talvez entre duas senhas e um “volte amanhã”, descubram que governar não é complicar a vida de quem já vive longe de tudo. E que mobilidade não é um privilégio concedido por despacho — é um direito básico num arquipélago.
Sorria para a câmara. O madeirense continua na fila. E o bardamerda do costume continua a explicar que isto tudo é para o bem de todos.
O agravamento da burocracia do subsídio de mobilidade não é um acidente técnico nem um erro informático. É uma opção política, assinada, carimbada e empurrada para cima do cidadão por Miguel Albuquerque. O madeirense paga a viagem, adianta o dinheiro e depois é convidado a fazer peregrinação aos CTT para provar que não inventou o voo. Mobilidade transformada em teste de resistência.
E claro, nada disto teria sido possível sem o génio operacional do bardamerda Eduardo Jesus, sempre pronto para explicar que é tudo “uma questão de ajustamento” e que o cidadão “tem de se adaptar”. Adaptar-se a quê? A um sistema que parte do princípio de que o madeirense está sempre a tentar enganar alguém? A desconfiança como política pública?
Eduardo Jesus fala, Miguel Albuquerque assina, e o cidadão que se organize. É uma coreografia bem ensaiada: o poder decide, terceiriza o incómodo e depois comunica com ar ofendido quando alguém se atreve a reclamar.
