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Madeira, cem anos de ditadura.

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 história é um espelho deformador onde a Madeira se recusa a olhar com honestidade. Vivemos num hiato temporal, uma anomalia democrática que persiste desde a Ditadura Nacional de 1926. Enquanto o continente celebra a queda das correntes, o arquipélago permanece num estado de sítio psicológico, uma «prisão dourada» que apenas mudou de carcereiro. O regime autoritário mais longo da Europa Ocidental, o Estado Novo (1933–1974), não morreu no Funchal em 25 de Abril; ele simplesmente transmutou-se numa nova pele política, preservando os velhos hábitos de controlo e perseguição sob o manto de uma autonomia de fachada.

António de Oliveira Salazar governou Portugal durante 36 anos e 84 dias. Alberto João Jardim, sob a bandeira de uma autonomia que mais parece uma autocracia personalizada, superou-o com 37 anos de hegemonia absoluta. A matemática do poder é cruel e transparente: Jardim bateu o recorde de longevidade do ditador em 2014, provando que a estrutura de controlo social e político na Madeira é mais resiliente que a própria Revolução dos Cravos. O povo, anestesiado por décadas de clientelismo e medo, assiste agora à sucessão dinástica de Miguel Albuquerque desde 20 de Abril de 2015. Este ciclo vicioso renovou-se em 2019, 2023, 2024 e 2025, sem que a sociedade civil ouse questionar as fundações podres desta casa.

A conspiração do silêncio reside na génese do PPD/PSD. Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota não surgiram do vácuo; eram os rostos da «Ala Liberal» da Assembleia Nacional Marcelista. Embora pintados como reformadores, a sua ligação umbilical ao antigo regime é a prova de que o sistema se auto-preservou através de uma metamorfose calculada. A Madeira serviu de refúgio estratégico para Marcello Caetano e Américo Thomaz em Abril de 1974. Não foi um exílio fortuito; foi a escolha deliberada do santuário onde a ordem antiga ainda respirava, protegida por militares e por uma elite local cúmplice. Enquanto a PIDE era desmantelada no continente, as estruturas de poder madeirenses preparavam a sua camuflagem democrática para garantir que nada mudasse verdadeiramente.

Onde está a liberdade de expressão? Onde está a imprensa livre? O que vemos é um rebanho domesticado, submetido a um regime que utiliza o orçamento regional como algemas invisíveis para silenciar a dissidência. A autonomia foi o truque de mestre para converter uma colónia da República num feudo pessoal. A luz solar dos valores de Abril nunca penetrou a densa névoa do regime laranjal que nos sufoca há um século. O que temos é um simulacro de democracia, um teatro de sombras onde os actores mudam, mas o guião permanece escrito com o punho de ferro herdado de 1926. É o momento de rasgar este véu de propaganda e mentiras. A Madeira não pode continuar a ser o último baluarte de um Portugal arcaico que já deveria ter desaparecido. É imperativo um despertar cívico, uma ruptura total com o passado que nos prende a esta mediocridade institucional e moral. A verdadeira liberdade não se pede; toma-se com a força da verdade. Que este manifesto seja a primeira pedra na reconstrução de uma Madeira livre, sem os vícios de um século de opressão constante e dissimulada. A nossa dignidade é a única arma contra este regime caduco. A verdade é o nosso único martelo.

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