Bom dia a todos,
D esculpem lá se vos vou meter em encrencas e azias, mas acho que a plataforma aguenta. Até porque é verdade. Hoje pego no JM e lá estava sem falta um elogio ao Albuquerque, que grandes façanhas faz ele, para todos, menos os madeirenses, o povo. Na mesma edição, vem excertos de comentários das redes sociais, as tais que não prestam para nada mas, que dão as bocas potentes que o jornalismo amestrado não pode dizer. É sempre a mesma tática, por os outros a dizer, forte jornalismo de estufa e de estado de graça. Tem piada que o JM sim usa as rede sociais, é que o outro, o DN, até faz campanha de assinaturas a mostrar que a imprensa madeirense é que é boa, sem ela quase não há redes sociais, como se muitas das notícias não nascessem da proximidade de todos nós com os acontecimentos, para que redações curtas e pouco ágeis tenham a vida facilitada.
Mas isto não é o pior, na mesma edição vem uma notícia, obra de Miguel Albuquerque! Aquele que recebeu a bajulação da medalha.
Esta notícia é um retrato quase perfeito de uma política pública que falhou no essencial, apesar de poder ser apresentada como “sucesso” em powerpoints e discursos oficiais. Estava previsto e disseram a cru no Madeira Opina. O que se passa no Porto Santo não é prosperidade, é inflacionar um território frágil até ao limite, empurrando os residentes para fora do seu próprio chão. Para os que já têm passaporte para os milhões.
Isto sim é obra de Albuquerque, ultrapassar a Madeira no preço das casas numa ilha com menos de 6 mil habitantes, economia pouco diversificada, salários baixos e forte dependência do setor público e do turismo não é sinal de desenvolvimento. É sinal de captura do território por interesses externos, alimentados por políticas deliberadas. Uma ilha sem ferry nos dois primeiros meses do ano para o explorador não gastar dinheiro. Se fosse um armador com vários ferries isto não acontecia, mas mandaram-no embora...
Os projetos promovidos pelo Governo Regional liderado por Miguel Albuquerque, turismo de luxo, resorts, incentivos a investimento imobiliário, discurso de “ilha premium”, campos de golfe, não foram acompanhados por políticas sérias de habitação para residentes. O resultado é previsível e já conhecido noutras geografias:
- preços a subir 42,6% num ano;
- jovens incapazes de comprar ou arrendar;
- trabalhadores essenciais obrigados a sair da ilha;
- Porto Santo transformado num produto imobiliário, não numa comunidade.
Há aqui uma inversão moral grave, mas não há jornalismo para o dizer, não podem tocar no "passaporte". O poder político gaba-se de “valorizar” a ilha, quando na prática desvaloriza quem lá vive. Uma casa que sobe de preço não é riqueza se o salário fica no mesmo sítio. É apenas exclusão com vista para o mar.
Esta subida brutal não resulta de melhoria estrutural, não há novos hospitais, universidades, indústria, nem salários que justifiquem estes valores. Resulta de escassez artificial, especulação e orientação política consciente para atrair quem compra casas como ativo, não como lar.
O Porto Santo está a ser tratado como apêndice turístico da Madeira, não como uma sociedade com direito a equilíbrio social. Albuquerque pode apresentar números, mas os números gritam outra coisa, a política está a funcionar para investidores e a falhar para os porto-santenses. Mas também para madeirenses que queiram fazer férias, porque casa alugadas no Verão para férias vão acabar. Se isto é o “resultado” dos projetos, então o preço real não está no metro quadrado, está na expulsão silenciosa, na perda de coesão social e na transformação de uma ilha habitada numa ilha vitrina.
E então? Não há medalha para isto? O patrão não deixa?
