A oposição da Venezuela é que caiu na emboscada de Trump



Não é pela democracia, é para roubar minerais e petróleo.

V enezuela, a aplicação prática da ressurreição da Doutrina Monroe sob uma roupagem transacional e agressiva, que alguns analistas já apelidaram de "Donroe Doctrine" (uma fusão de Donald com Monroe). Depois dos eventos de 3 de janeiro, com a captura de Nicolás Maduro e o anúncio de que os EUA vão "administrar" a Venezuela, aliás Trump "ME", a mensagem de Trump confirma a tese de que o interesse principal não é a democracia, mas sim o controlo estratégico e económico.

A Doutrina Monroe original (1823) dizia "a América para os americanos", e visava afastar as potências europeias. Estamos em 2026! Na versão de Trump deste ano, o objetivo é purgar a influência da China, Rússia e Irão do hemisfério ocidental, purgar o "quintal da América"... expressão degradante e colonialista, justamente o que Monroe queria extinguir. Que cabeça esta de Trump?

Trump foi explícito ao dizer que as empresas petrolíferas americanas vão entrar para reconstruir a infraestrutura "apodrecida". A ideia de "administrar" o país, até uma transição segura, serve como cobertura para garantir que os contratos de exploração de petróleo e terras raras sejam favoráveis aos EUA, sem data de fim...

Ao contrário de intervenções anteriores que falavam em "libertar o povo", o discurso atual de Trump foca-se na vitória militar e no retorno financeiro (o famoso "take the oil" que Trump defende desde a campanha). Trump está embevecido pelos feitos militares e parece que quer mais na Groenlândia.

O regime foi decapitado, mas mantém-se em pleno, decapitada está sem apelo nem agravo a oposição considerada vencedora nas eleições. A oposição da Venezuela foi enganada pelos americanos e muitos venezuelanos que ainda festejam sem perceber onde se meteram.

Embora a administração anterior reconhecesse Edmundo González, Trump tem evitado dar-lhe um apoio inequívoco. Em vez disso, prefere negociar com figuras do "chavismo sem Maduro", como a vice-presidente Delcy Rodríguez, que permanece no poder em Caracas.

Para Trump, um regime autoritário que colabore com as petrolíferas americanas, trave a imigração e pare o narcotráfico é preferível a uma democracia instável liderada pela oposição. Isto sugere que a estrutura do regime pode sobreviver, desde que mude de "dono". Que categoria tem este Presidente dos EUA? Um canalha?

Trump afirmou que a operação "não custará nada" porque será paga com o próprio petróleo venezuelano. Na prática, isto é a aplicação máxima da Doutrina Monroe, tratando a Venezuela mais como um território sob tutela do que como uma nação soberana.

A oposição venezuelana (Machado e González) parece ter sido secundarizada por uma visão onde os EUA são os "liquidatários judiciais" do país. Aliás, Trump teve a lata de "destituir" as pretensões de Machado porque lhe ganhou o Prémio Nobel da Paz. A Doutrina Monroe foi atualizada para um modelo de negócio militarizado, quem controla o território, controla a riqueza e dita quem pode (ou não) governar em nome da "estabilidade".

Ainda bem que o Miguel Albuquerque vai à Venezuela resolver isto.

Cuidado Europa, esse bandalho não vai parar...