Senhor Presidente,
T enho um convite simples, sem helicóptero nem sala VIP, venha comigo levantar o subsídio de mobilidade aos CTT. Ao balcão. Com senha. Como um residente normal, essa espécie exótica que o Governo adora invocar mas raramente acompanha. Senha na mão, fila interminável, sistema em baixo e aquele olhar cúmplice do funcionário que já desistiu da vida às 10h17 da manhã. Eu trago os papéis, os meses de espera e a sensação permanente de que estamos a pedir um favor e não a reclamar um direito.
Vamos juntos. O senhor explica-me, ao vivo, como é que isto funciona tão bem. Eu levo os comprovativos, o cartão de cidadão, a paciência, e o senhor leva o discurso ignorante que costuma usar nas conferências de imprensa.
E já agora, como trilha sonora, podíamos ir a cantar “Anda Comigo ver os Aviões” do Miguel Araújo. Combina lindamente. Eu tento, o senhor tenta e talvez assim perceba que NÂO FUNCIONA! CATANO!
Um Presidente de Governo Regional a descobrir que o subsídio não se levanta. Que não é mobilidade, é resistência. E que o residente não quer favores, quer um sistema que não trate adultos como estagiários administrativos.
Prometo não filmar. Só observar. Governar não é só subir ao palco e entregar canetas pela rua, é também enfrentar o balcão dos CTT.
Então, Miguel, anda comigo ver os CTT.
O subsídio chama-se “mobilidade”, mas na prática promove imobilismo, pessoas presas a recibos, plataformas opacas e balcões onde a resposta padrão é “ainda não entrou”. Não é política pública, é um teste de resiliência emocional.
E se um Presidente nunca precisou de ir ao balcão, então talvez esteja na altura de descer do púlpito.
Venha daí, Miguel. Um café depois dos CTT é por minha conta.
