Obrigado pela ausência


Abstenção: o triunfo do sofá

H á dias em que a Nação acorda com vontade de agradecer. Hoje, Portugal agradece. Agradece, comovido, aos abstencionistas que se abstiveram com convicção olímpica. Aos que, no domingo, 18 de janeiro de 2026, decidiram que votar dá trabalho, que a democracia cansa e que o sofá também é um espaço cívico. Obrigado por serem lentos, preguiçosos e por confiarem o futuro do País “aos outros”. É um gesto de generosidade rara.

A vossa não participação foi, de facto, uma mais-valia nacional. 38,50% de abstenção a nível nacional: uma coreografia coletiva de braços cruzados. Na Madeira, 45,60%: um silêncio ensurdecedor com vista para o Atlântico. É exatamente isto que se quer quando a democracia boceja e a extrema-direita faz aquecimento. Menos gente a decidir, menos chatices, mais emoção. Democracia light, sem calorias.

E como esquecer os indecisos profissionais? Os que votaram em branco, 1,07% (60.899 votos), e os nulos 1,14% (64.817 votos) no total nacional. Na Madeira, os brancos (0,54%, 746 votos) e os nulos (2,97%, 4.128 votos) elevaram a indecisão à categoria de arte contemporânea. Uma instalação viva chamada “Não Sei, Logo Existo”. Obrigado por não escolherem. A escolha, como se sabe, é uma tirania moderna.

É reconfortante perceber que, perante decisões históricas, há quem prefira o conforto do talvez. Viva aos que nunca se decidem. Viva aos que terceirizam o futuro. Viva aos que confundem neutralidade com virtude e preguiça com ponderação. São o amortecedor emocional do regime: quando tudo aperta, vocês aliviam… ficando em casa.

A Nação agradece. Precisa mesmo de pessoas assim: abstencionistas resilientes e indecisos criativos. Enquanto uns votam, vocês meditam. Enquanto uns escolhem, vocês observam. E enquanto a História passa, vocês pedem um cafezinho quente, um donut açucarado e um copinho de sumo de laranja. Sem pressas. A democracia espera. Ou não.