N a Madeira surgiu a notícia do fabrico de robôs com vista a ocupar postos de trabalho onde falta mão-de-obra. Não é a tecnologia em si que está em causa, é a opção política e económica por tornar pessoas descartáveis. Não se trata de saber se os madeirenses querem trabalhar, trata-se de saber em que condições os deixam trabalhar. Quando empregos pagam mal, exigem jornadas exaustivas e ignoram necessidades básicas, o resultado não é preguiça: é sobrevivência precária.
As necessidades fisiológicas, alimentação, repouso, higiene, abrigo, não são caprichos: são pré-condições da pessoa humana e da sua capacidade de produzir. A base da motivação humana não se negocia. Substituir seres humanos por máquinas para reduzir custos é escolher desemprego e desvalorização humana em nome do lucro. Empresas que preferem automação indiscriminada em vez de melhorar salários, horários ou condições de trabalho mostram a sua prioridade: o balanço, não a vida.
Em Portugal, a Constituição e o Código do Trabalho fixam limites e garantias: remuneração adequada, jornada máxima de 8 horas/dia e 40 horas/semana, férias mínimas (22 dias úteis), subsídios e proteção social. A Autoridade para as Condições do Trabalho existe para fiscalizar abusos. Estas normas não são obstáculo ao progresso, são salvaguarda da dignidade colectiva.
Exigimos políticas públicas que priorizem o emprego humano digno: mecanismos fiscais e incentivos condicionados à manutenção e valorização do emprego; negociação colectiva vinculativa; fiscalização efectiva; e programas de formação que integrem tecnologia como complemento, não como substituto. Reclamamos também medidas concretas de conciliação entre trabalho e vida privada horários previsíveis, pausas dignas, alimentação adequada no local de trabalho.
Convocamos trabalhadores, sindicatos, cidadãos e responsáveis públicos a mobilizarem-se contra despedimentos colectivos justificados por aumento de lucros e pela promessa de substituição robotizada. A luta não é contra o progresso técnico, mas contra a automatização da exploração. Tecnologia sim, desumanização não.
Os patrões podem ser mais humanos: valorizem quem trabalha, invistam em condições decentes, respeitem direitos. O Estado deve garantir que o avanço tecnológico esteja subordinado ao interesse público e à Constituição. Sem dignidade laboral, não há progresso, apenas máquinas a substituir pessoas esquecidas. Exigimos respeito, proteção e futuro digno para todos os trabalhadores.
